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autoconhecimentodo propósito à autenticidade, na palestra do arcadia
o título estava trocado de propósito. primeiro você descobre quem é, depois decide pra onde vai. numa palestra no arcadia institute, contei da roça, do celular que eu não vendi e da responsabilidade que ninguém quer assumir.
a palestra se chamava "do propósito à autenticidade", e logo no começo eu avisei que o título estava trocado. propósito é pra onde você quer ir. autenticidade é o que você é. e ninguém traça um caminho sem saber onde está. primeiro você se conhece, depois decide aonde quer chegar. por isso eu quase não uso "com propósito", prefiro "de propósito". foi numa noite no arcadia institute, em maio de 2019, com uma turma pequena na sala e outra assistindo de casa.
nenhuma ferramenta salva quem não sabe quem é
muita gente chega nesse assunto esperando alguém dizer o que fazer. só que toda estratégia, toda ferramenta, não vale nada se você não sabe quem é, o que quer e com quem quer estar. dá pra ser muito bom numa área e passar o dia com um tipo de gente que não te agrada. faz o que gosta, mas não fala com quem gosta, e o prazer vai embora no dia a dia.
e tem a diferença entre o online e o físico. quantas vezes você conhece alguém na rede e, ao vivo, parece outra pessoa? a criança assiste ao mesmo desenho vinte vezes porque gosta de segurança, já sabe o que vem depois. a gente é igual. se a sensação que você passa na rede é a mesma que entrega pessoalmente, a confiança cresce. é a fachada da loja: quando mostra o que tem dentro, quem entra tem muito mais chance de comprar e de voltar.
a roça, o japonês e o desenho
contei de onde eu vim. com quatro anos, fui arrancado da cidade pra uma roça sem energia, numa colônia de japoneses, onde meu pai foi um dos primeiros brasileiros a comprar terra. escola de duas turmas, tudo diferente, ninguém por perto. lá, todo mundo tinha uma função. eu e meu amigo trabalhávamos meio turno na roça de um, meio turno na do outro, e só assim sobrava tempo pra brincar. ali eu aprendi a criar solução com o que tinha.
voltei pra salvador em 93, comecei a trabalhar com dezesseis, dezessete anos, passei por dezenas de funções. desde 99 faço design. só que, por muito tempo, não assumi isso. era o que eu amava, o que me fazia acordar pra desenhar, e eu não acreditava que dava pra viver daquilo. fui assumindo outras coisas e acumulando frustração.
o que me dava prazer não era desenhar
quando voltei lá atrás pra entender do que eu gostava, percebi que não era o desenho em si. era resolver um problema. o design é a ferramenta. a constelação familiar, que eu estudo há anos e uso no meu trabalho, também. o prazer está na solução.
só que pra ser lembrado você precisa escolher alguma coisa. se eu disser que sou o cara que soluciona, a pergunta vem na hora: soluciona o quê? tenho um vizinho geólogo que trabalhou anos na construção de uma barragem. quando saiu, continuou falando de barragem, e virou o cara da barragem. até hoje é chamado pra resolver problema de barragem pelo país.
uma médica me procurou com sete formações diferentes, de reiki a terapias que eu nem sei pronunciar, sem saber como juntar tudo. como eu acompanhava o conteúdo dela, perguntei: você vive falando de estresse e ansiedade, se sentiria bem sendo a doutora do estresse? a ferramenta pouco importa. o importante é resolver o problema de quem te procura.
o celular que eu não vendi
trabalhei um ano como promotor de uma marca de celular numa loja. um dia chegou uma pessoa que queria mesmo era o aparelho bonito da concorrente, o queridinho da época. eu podia empurrar o meu, tinha argumento pra isso. disse pra ela levar o outro. dias depois, gente começou a aparecer dizendo que fulana tinha mandado me procurar. virei o cara que indicava o celular certo. um cliente bom traz outros bons. um cliente insatisfeito lembra de você toda vez que abre o celular, e isso é péssimo.
o menino da grama
no condomínio onde eu morava, um rapaz cortava a grama todo mês. trabalhava numa empresa de jardinagem, fazia bem, conversava bem. perguntei quantos jardins ele precisava fazer pra tirar o salário. doze. em quantos dias? três. então mandei fazer uns cartões de visita e um folheto pra ele espalhar pelos condomínios. meses depois ele me contou que tinha largado o emprego e estava ganhando mais, acordando todo dia pra fazer o próprio negócio. o medo de largar o fixo é real. eu mesmo voltei pra agência depois que minha primeira filha nasceu. o problema nunca é ter um emprego. é ter um emprego que não te satisfaz, aquele em que o despertador toca três vezes e você não levanta.
o bolo de cenoura
quando você é autêntico, as pessoas começam a discordar de você. não falo de política, religião ou futebol. falo de tomar uma posição. e tudo bem cada um ter a sua. um bolo de cenoura com calda de chocolate é só um bolo, mas cada pessoa sente um gosto, porque come com a própria história, o próprio momento, a própria lembrança. o mundo é esse bolo. o que está lá é simples, a gente é que complica. respeitar a experiência do outro faz parte.
e tem o papel que a gente tinha nos primeiros grupos, a família, a escola, a turma do prédio. quem era o brincalhão, quem inventava as brincadeiras, quem quebrava as regras. em algum momento muita gente se perde disso, porque a gente nasce e cresce buscando reconhecimento, primeiro dos pais, depois do namorado, do chefe, do cliente. e acaba se moldando pra ser reconhecido antes da hora. o filho da família de médicos vira médico porque quis ou porque esperavam isso dele?
a geração que pode escolher
minha avó costurou a vida toda pra sustentar a família, fazendo muito do que não gostava. a geração dos nossos avós fez quase tudo por obrigação. por isso propósito virou moda: a melhor forma de honrar quem não pôde fazer o que amava é fazer o que a gente ama. e hoje a internet permite. antes, quem quisesse viver de fazer mágica só teria o bairro como cliente. hoje você pode ser designer de marca pessoal pra profissionais de saúde e ser encontrado por eles no país inteiro. quanto mais específico, mais fácil te acharem.
culpa é coisa de criança
aí veio a parte que incomoda. se você não está satisfeito com o que faz, com onde está, com o que conquistou, a responsabilidade é sua. não é do pai, da mãe, da falta de oportunidade. culpa é coisa de criança. adulto tem responsabilidade. e quando você assume a responsabilidade, ganha energia pra fazer alguma coisa a respeito. até continuar onde está é escolha, e tudo bem, desde que você assuma.
eu mesmo, quando cansei de esperar o momento certo pra me mostrar na internet, com material guardado desde 2014, liguei pra um amigo e pedi ajuda. ele topou com uma condição: eu ia fazer o que ele mandasse. pedir ajuda também é assumir a responsabilidade.
o bert hellinger tem uma ideia que eu gosto muito: a felicidade costuma ser solitária, e o problema sempre tem companhia. quando você conta uma conquista, pouca gente fica. quando chega reclamando, aparece todo mundo pra acolher. por isso tanta gente se acomoda no lugar de vítima. e a gente só tem essa vida.
prazer na frente
o workaholic é refém do trabalho. perde a família, as relações, e o corpo vai avisando aos pouquinhos até que para. o worklover® é o contrário, trabalha com o que ama e por isso fala de trabalho em qualquer lugar sem perceber. e tem o lovenicho®, o público que te dá prazer de atender pelo resto da vida.
eu penso em três pilares: o amor, que é o prazer de fazer, o dinheiro e o sucesso, que é o reconhecimento. se você coloca o dinheiro na frente, nem sempre quem paga é quem te dá prazer, e o reconhecimento não vem. se coloca o prazer na frente, fazendo pra quem você gosta, é muito mais fácil essa pessoa reconhecer o seu valor, e aí o dinheiro chega.
e lembrei da máscara de oxigênio do avião: primeiro em você, depois no outro. muita gente quer tanto ajudar que piora a situação. quando você faz por você, vira exemplo, e o exemplo contamina.
no fim da palestra, a gente fez uma dinâmica de constelação, cada um representando a própria pessoa, o propósito e o que impede esse propósito. e eu contei da minha rotina: de manhã, o que é pra mim, o conteúdo, o treino, as minhas coisas. de tarde, começo pelo que mais gosto, que é desenhar marca. foi quando passei a dedicar mais tempo pra mim que comecei a ganhar mais.
o que você faria hoje se assumisse que a responsabilidade é toda sua?
fui. 💚


