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autoconhecimentojornada da protagonista #3: o poder da decisão
terceiro e último dia da jornada da protagonista. desejo não muda nada, decisão muda tudo. falamos do garçom que aprendeu inglês, da ponte queimada, da vaca no despenhadeiro e de como o corpo responde sim antes da cabeça.
no primeiro dia eu estava sem óculos, de cabelo bagunçado e camisa de malha preta qualquer. no segundo, cabelo arrumado, óculos. no terceiro, camisa social. fiz de propósito e pedi pra quem acompanhou reparar. a fala era a mesma, o conteúdo era o mesmo. a imagem não comunica sozinha, mas é a primeira coisa que chega, antes de qualquer palavra. o terceiro dia da jornada da protagonista foi sobre decisão, e começou por aí.
o menino da camisa floral
a primeira vez que eu fiz marca pessoal sem saber o nome disso foi com dezesseis, dezessete anos, vendendo numa loja de surf perto da estação da lapa. a molecada vinha durante a semana, experimentava e não comprava. voltava no fim de semana com os pais e, sem lembrar quem tinha atendido, ficava com o primeiro vendedor que aparecesse. eu perdia venda. comprei umas camisas florais e passei a ir só assim. quando perguntavam meu nome, eu dizia: fala do menino da camisa floral. pronto, mesmo quando eu não estava, a venda vinha pra mim.
na faculdade de design eu ia sempre de chinelo e bermuda, já trabalhando em agência, com portfólio maior que o de muito professor. um professor de semiótica, que me inspirava muito, perguntou por que eu ia daquele jeito. disse que a faculdade era lugar de network e de mostrar o diferencial, e que eu devia ir como quem vai atender um cliente. mudei. em 2008, ainda no meio do curso, dei minha primeira palestra sobre marca pessoal num seminário interno, com o nome "você é sua marca".
e eu nunca cheguei pronto. meu primeiro story de conteúdo é travado, escrito em linguagem acadêmica. a gente vê a pessoa solta hoje e esquece que não começou assim. a primeira vez que vi um amigo fazendo story no aeroporto, me escondi atrás dele. dois meses depois eu estava no aeroporto fazendo aula de inglês no fone, falando errado em voz alta. é prática.
o garçom que decidiu
um desejo não muda nada, uma decisão muda tudo. "eu queria viajar", "eu queria a conta cheia". desejo não leva a lugar nenhum.
numa madrugada, depois de uma aula de palhaçaria, fui comer um cachorro-quente com uns amigos. o garçom começou a falar inglês com a gente. eu, que já fiz curso e tudo e tenho dificuldade, perguntei qual era a fórmula. ele contou que também tinha aprendido a ser pedreiro e construído a própria casa, que tinha escrito e publicado um livro de poesia, e foi buscar o livro pra mostrar. perguntei o segredo. ele olhou na minha cara e disse: aprendi inglês na hora que decidi aprender inglês.
queimar a ponte e matar a vaca
a dificuldade de muita gente é ir com um pezinho só. pensa em alguém caindo num barranco. quem tem medo se segura na beirada e desce rolando, se machucando toda. quem se joga curte a descida. o que tem lá embaixo nenhum dos dois sabe, mas a queda é outra.
tem a história do imperador com o exército menor. os soldados começaram a falar em recuar, e ele queimou a ponte atrás deles. sem volta, foram com tudo e venceram. eu fiz isso no meu primeiro evento fora, em floripa. o ingresso estava no ar e não vendia nada. eu disse pro meu parceiro: enquanto a gente não comprar a passagem e pagar o espaço, isso não vai sair. pagamos. aí não tinha mais opção, e o evento aconteceu, com gente que até hoje produz conteúdo no próprio nicho. um deles, que trabalhava com registro de marca, escondia o braço tatuado debaixo do paletó. perguntei por quê, se ele parecia gostar da tatuagem. no outro dia ele apareceu de camisa, mostrando o braço, e em pouco tempo virou referência ensinando designers sobre registro de marca.
e tem o mestre que manda o discípulo empurrar do barranco a vaca de uma família pobre que vivia do leite dela. anos depois eles voltam e o lugar está próspero. sem a vaca, a família teve que plantar, produzir, inventar. o que te segura hoje? um emprego, um cliente ruim com contrato, um projeto que você não larga. às vezes é a sua vaca.
o empurrão
na constelação se fala que o jeito que a gente nasceu diz alguma coisa sobre a iniciativa. eu sou meio a meio, e muitas vezes precisei de um empurrão. tentei três vezes empreender e voltei pro emprego. da última, já decidido, perguntei a uma colega o que eu levava se pedisse demissão. ela disse pra eu esperar. na terça eu fui demitido. fui trabalhar em casa, com alguns clientes, e estou nisso até hoje.
e tem as pessoas em volta. nenhuma mãe deseja mal pro filho, mas o desejo dela de um concurso ou de um emprego fixo nem sempre é o seu. por medo dos outros, que eu acabava fazendo meu, eu poderia ter empreendido muito antes.
o corpo decide primeiro
decisão racional sem decisão emocional não se sustenta. então ensinei duas ferramentas. a primeira é o sim biológico. de pé, pés alinhados com os ombros, pense em algo que você ama muito e faça uma afirmação, sem pergunta: eu amo o que eu faço. o corpo pende levemente pra frente ou pra trás. pra frente é sim, pra trás é não. faça com algo que você detesta e perceba a diferença. e não repita a mesma afirmação duas vezes.
a segunda é uma tabela simples. você lista as opções, que nunca são só duas: a opção a, a opção b, as duas juntas, nenhuma das duas e uma nova opção. às vezes juntar é o caminho, como o advogado que gosta de design e vai trabalhar com registro de marca. em cima, a sensação de cada uma e os benefícios concretos. pontua e soma. serve pra nome, pra cor da marca, pra onde investir.
e fizemos uma constelação estrutural com cinco papéis dobrados, um pra cada opção. sem saber qual é qual, você pega um por um, sente o que cada papel provoca no corpo e organiza do que dá a melhor sensação pro pior.
escutar o silêncio
tem uma frase que resume o meu trabalho: escute seu silêncio pra fazer o barulho que deseja. a visualização final foi pra isso. entrar numa imagem de conquista, ouvir o pai dizer "você me orgulha", ouvir a mãe também, sentir o aplauso de quem está em volta e acordar sabendo que tem amor no que faz.
eu quero ver mais gente sentando com um cliente, tomando um café, contando uma piada e rindo, sem perder o valor por isso. quem é referência demonstra isso sem depender da roupa. a melhor imagem de você é aquela que você quer pra você, e não a que os outros esperam.
o que você está desejando há tempo demais sem decidir?
fui. 💚


