em agosto de 2023 o hugo fernandes me recebeu no ecossistema podcast, que se apresenta como o maior ecossistema de empreendedores do brasil. no bastidor a gente já tinha começado a falar de intencionalidade, porque até essa frase deles é intencional: quem escuta e se vê empreendedor quer fazer parte e se inscreve. foi daí que a conversa saiu, e não parou mais.
o nome é o ponto de partida
começamos pelo arroba, porque é por onde eu costumo começar com qualquer cliente. fabio braga eu não conseguia registrar, fabio albuquerque também não. nunca gostei de ser mais um, e quem tem nome comum para no meio da busca. kerk já era apelido, virou nome profissional, virou empresa. são quatro letras simples, a pessoa pode até esquecer o fabio, mas o kerk fica. hoje é o mesmo nome no site, no instagram, no tiktok, no linkedin, no spotify e no e-mail. quanto mais centralizado, melhor, porque as pessoas falam da gente pelo nome antes mesmo de ver nosso rosto.
aproveitei pra cutucar o próprio hugo, que usava um ".oficial" no arroba. sempre brinco: se você é oficial, cadê o selo? o oficial só alonga o nome. dá pra brincar com os sobrenomes, juntar o materno com o paterno, criar uma sonoridade própria. pela constelação familiar isso ainda integra as duas linhagens. e se você consegue o domínio, o arroba pode ser o próprio site, como fazem algumas marcas que usam o ".com" no instagram e levam a pessoa direto pro portfólio. só não esquece de pesquisar o significado e o registro antes, e de pensar no futuro: quem batiza o bar de "bar da esquina" vai ter que caçar esquina se quiser virar franquia, hehe.
antes da casa, o terreno
contei a minha trilha acadêmica, que tem tanto curso trancado quanto concluído. sistemas de informação, design gráfico, psicologia trancada, docência em 2008, um mestrado em ergonomia trancado, outro em educação com inteligência artificial em 2012 também trancado, duas formações em constelação familiar, uma delas de três anos, hipnoterapia e coaching sistêmico. tudo isso me mostrou que não dá pra ser só estratégico. antes de pensar na casa dos sonhos, você precisa achar o terreno certo, senão constrói a casa linda no lugar errado e depois não tem pra onde levar.
na constelação existem três ordens: pertencimento, hierarquia e equilíbrio. o pertencimento é encontrar algo que te representa e integra tudo que você tem. kerk vem de albuquerque, mas eu sou braga souza albuquerque, e preciso ter todos esses nomes dentro de mim. um nome assim tem história pra contar, não é apelido de jogador de videogame.
ser intencional
meu trabalho hoje é ajudar as pessoas a serem intencionais. muita gente perde a autorresponsabilidade e tem medo de decidir porque não enxerga o ganho de cada escolha. até usar óculos num podcast é decisão. já fiz live com óculos sem lente e no final perguntei se eu parecia mais intelectual. a galera se vende muito fácil por qualquer imagem.
o arthur bender fala de três pilares: imagem, comportamento e obra. tem gente com obra tão grande que dispensa o resto, tipo o steve jobs ou o niemeyer. nós, meros mortais, precisamos cuidar dos três. e marca pessoal é o que falam de você quando você não está na sala. branding é o que você faz pra falarem bem. se de dez pessoas seis dizem que eu sou chato, não adianta eu achar que não sou. o caminho é vender o lado bom disso: detalhista, atencioso, crítico. quem chegar até mim não vai achar chato, vai achar cuidadoso.
o que mostrar na rede
o hugo perguntou o que vale a pena mostrar. eu chamo isso de microconexões. elo emocional se cria de pessoa pra pessoa, e pra atrair o cliente que tem conexão comigo eu preciso colocar meus pontos de conexão na vitrine. música pop, crossfit, ser pai com guarda compartilhada alternada, uma semana comigo e outra com a mãe. 84% do meu público é mulher, e um homem pai, separado, que faz terapia e participa de grupo masculino de constelação entende a dor dela muito mais do que quem não vive isso. é vida pessoal, mas mostrar é intencional.
e dá pra escolher não aparecer. quem quer ser marca fantasia e não quer a imagem refém da rede decide isso logo e não usa o próprio nome. eu escolhi aparecer, então mostro que tenho tdah, que sou de xangô airá, que tenho dendê no sangue. um amigo que vende muito na internet morria de vergonha de ser encontrado na rua de camisa velha. falei pra ele que se o story já mostra isso, encontrar ele na rua vira over delivery, não decepção. pior é o guru de preto com macbook num cenário alugado.
eu mesmo digo que não sou inteligente, que meu português não é dos melhores, mas que sou extremamente comprometido. a carol dweck, no livro mindset, explica a diferença entre mentalidade fixa e de crescimento: a criança elogiada por ser inteligente acha que não precisa se esforçar, e a elogiada pelo esforço continua aprendendo.
worklover, ônus e bônus
eu nunca fiquei mais de um ano num emprego. aprendia tudo e começava a me fazer mal. foram umas 40 funções, quase 20 de carteira assinada: vendedor da c&a, retenção de cartão, loja de surfwear, professor de forró universitário. até eu me perguntar por que não assumia o que eu amo.
o workaholic adoece, não vê esposa, amigo, o próprio corpo. o worklover® trabalha com o que gosta e por isso aguenta a burocracia e a reunião chata, porque sabe o que tem depois. trabalhar com o que ama não é só fazer o que gosta: tem ônus e bônus, como qualquer relacionamento. e o teste é simples: o que você se pega pesquisando de curiosidade, sem ninguém pedir? talvez seja aí. e acredito que trabalhar com o que a gente ama é a melhor forma de honrar nossos pais, que trabalharam muito sem escolher.
o licor da quinta são josé
contei uma história que eu guardo com carinho. meu pai era técnico agrícola e faleceu no fim de 2016. na infância eu carreguei caminhão de pedra e de madeira com ele, plantei tomate, pimentão, horta. ele tinha problema com bebida, e um são joão ele me deu um licor de jenipapo que ele tinha deixado um mês na infusão. ruim que só. no ano seguinte ele deixou três meses. ruim também.
aí eu propus: junta o seu trabalho de técnico agrícola com o meu. você bota em infusão hoje e a gente só abre daqui a um ano. nesse tempo eu estudo o ponto e faço o rótulo. abrimos em abril, meu irmão que nem bebe provou e disse que tava gostoso, e eu soube que era o ponto. filtramos três vezes no algodão, botei numa garrafinha bojuda com rótulo metálico e batizei de quinta são josé. quinta porque em portugal roça é quinta, são josé porque o nome dele era josé, e o cinco porque ele nasceu num 5 de junho e eu num 5 de outubro. enquanto o mercado vendia licor a 10 reais, o nosso saía por 25, 30. fizemos durante oito anos, cheguei a encher 800 garrafas na mão, e o que a gente faturava no meio do ano era o que muita gente na roça faturava no ano inteiro. depois que ele se foi, parei. não fazia mais sentido sem ele. mas ele viu de perto quanto rótulo e embalagem fazem diferença.
e isso hoje é ainda mais possível. o cara na roça com uma antena de internet vende orgânico pro país inteiro. eu mesmo amo liberdade geográfica. não sou home office, meu trabalho tá onde eu estou.
referência, autoridade e quem faz o quê
autoridade é patente, é poder, é cargo. referência é exemplo, é liderança, arrasta. não dá mais pra "faça o que eu digo e não faça o que eu faço". como você entrega sua rede pra uma agência cuja própria rede é ruim? casa de ferreiro tem que ter espeto de ouro. o vitor, que é level 3 de crossfit, resume assim: viva, entenda e guie. eu vivi a marca pessoal, entendi e guiei. depois o digital, vivi, entendi, guiei. depois a comunidade. é cíclico.
aproveitei pra separar umas caixas que muita gente mistura. o professor pega o conteúdo e facilita. o mentor já viveu e te ensina como fez. o coach não olha pra trás, te ajuda a chegar onde você quer. o consultor ouve tudo e te devolve um caminho. e quem olha pra trás é o terapeuta. coach de fim de semana mexendo em trauma pode fazer um estrago.
netweaving e lovenicho
networking pergunta o que a pessoa tem pra mim. netweaving pergunta como eu posso contribuir com ela. se o hugo me pede um pedreiro, eu indico o que combina com o padrão da obra dele, mesmo que não seja do meu grupinho. salvador tem uns dois milhões e seiscentos mil habitantes. mesmo com todos os recortes do mundo, mulher de 30 anos, mãe, divorciada, que vende serviço no digital e mora em tal bairro, ainda vai ter mais cliente do que eu dou conta. não tem por que competir.
e se o cliente não tem perfil pra ser seu amigo, pra tomar um café, o trabalho fica chato pros dois. não é porque a pessoa pode pagar que ela vira meu cliente. quando dá errado, a responsabilidade é 50% de quem insistiu e 50% de quem aceitou.
o lovenicho® é o nicho do amor. esquece persona e avatar por um minuto e pensa: quem é a pessoa que te liga e você faz de tudo pra resolver sem cobrar nada? pega três, quatro, cinco perfis assim e cruza com os clientes que mais tiveram resultado com você. aí você descobre a maria, que tem filho, sai da escola em tal horário, treina e vive com o carro fedendo porque joga a roupa molhada no banco. sabendo disso, você sabe até que produto vai resolver a vida dela. ela sente que você tá com uma câmera ligada na casa dela.
um designer pode ser o designer de identidade visual de posto de combustível. parece pouco? se dez postos te procuram por ano, você vive muito bem e entrega muito melhor. ou pode ser o designer da empreendedora com loja em shopping e fazer tudo dela, do site ao post. o hugo contou que descobriu que o que ele ama é vender. e tudo que eu estudei eu levo pra marca pessoal: não virei constelador, nem hipnoterapeuta, nem estrategista de marketing, uso tudo isso na marca pessoal. e quem não se compra não se vende.
pesquisar e interpretar
meu melhor dia de trabalho é domingo. vou pra floripa na quinta, pesquiso a cidade, dou workshop no sábado e no domingo, fico segunda e terça com a galera. isso não pesa porque eu tô no assunto que gosto. o advogado que virou advogado porque a família queria e ama futebol pode ser advogado esportivo e pelo menos respirar o assunto que ama.
os dois grandes erros de quase todo profissional são não saber pesquisar e não saber interpretar. a bíblia já dizia: ouça de tudo e retenha o que é bom. eu fui coroinha dois anos, venho de família católica e passei por várias religiões, e acho a bíblia fantástica, mas cada um interpreta de um jeito, e muita coisa foi organizada lá atrás por quem queria controlar a sociedade. honrar pai e mãe, por exemplo, não quer dizer aceitar tudo. quer dizer agradecer pela vida e assumir a responsabilidade pelo que você faz com ela.
na constelação eu aprendi que na dor você tem companhia e no sucesso você tá sozinho. a criança que só recebe atenção quando cai aprende a cair. e quando você começa a cuidar da sua vida, alguns amigos não vão junto. não se sinta culpado. a gente que vive do digital sofre num fim de semana cercado de quem odeia segunda-feira, e eu também preciso aprender que nem todo mundo quer empreender.
três jeitos de se realizar
com o tempo eu percebi três formas de se realizar no trabalho. a primeira é ser worklover autônomo e só depender de você. a segunda é achar uma empresa que te pague pra fazer o que você ama. a terceira eu só entendi atendendo uns 320 operários numa empresa do polo durante seis meses, muitos sem saber ler. eles não amavam soldar ou cortar chapa, mas tavam felizes porque a escala de trabalho bancava o que eles amavam fora dali: pesca, obra, quitanda. é a propaganda da heineken, o choque vale pela cerveja. pra quem quer sair da clt, meu conselho é saber que aquele é o último ano e construir sua coisa nele. o meu último emprego virou meu primeiro cliente.
sem expor a essência, tem prazo
dá pra fazer branding sem mostrar quem você é? dá, mas tem prazo de validade. vender uma imagem boa é fácil, carro, casa, equipamento. a pergunta é quem aguenta carregar o ônus dela. e quem tá vinte degraus acima tem dificuldade de puxar quem tá lá embaixo. quem ajuda melhor é quem tá um ou dois degraus acima, porque acabou de passar pela mesma dor.
um tema que me incomoda é gente grande ensinando significado de cor como se fosse fórmula. o jeans não é "o azul", é textura, é tecido, depende de contexto. vermelho não dá fome, quem abre o apetite é amarelo e laranja, o vermelho do fast food é pra você comer rápido e sair. na itália vermelho tem outro peso, e na ásia ninguém sentaria num vaso sanitário verde, porque lá o verde é sagrado. semiótica é a leitura que a maioria faz. foto de perfil olhando pra baixo, escondendo o rosto, não passa simpatia. e design não é desenho, é projeto baseado em dado. na alfa, testamos a peça mais limpa contra a cheia de elementos que o designer dizia que o público gostava. a limpa ganhou nas três categorias, uns 3% acima. na dúvida, teste.
múltiplos potenciais e o porquê
o hugo perguntou como alguém eclético acha seu centro. a resposta é simples: qual problema você quer resolver, pra quem e como. tem o multipotencial que sabe um pouco de tudo e não brilha em nada, e tem o multipotencial em t, que canaliza tudo numa coisa só. eu não sou constelador nem psicólogo, eu trabalho com marca pessoal. um amigo, o fernando mariano, sabia de site, design, produção cultural, projeto, e foi contratado pelo linkedin justamente como generalista por uma grande empresa de preparação pra concurso. às vezes o generalista é o melhor pra gerir um time de especialistas.
e tem o porquê. imagina uma empresa que ficou rica tirando gelo do polo e entregando no mundo. chegou a geladeira e ela morreu. se o propósito dela fosse levar água gelada pra vida das pessoas, ela teria virado fabricante de geladeira. o que importa é a direção, não o ponto exato. a minha é servir, ajudar gente a tomar decisão. e quem se emociona contando um case vende sem copy e sem pitch. o expert que não consegue seguir roteiro rende o melhor conteúdo num bate-papo gravado.
prosperidade é estado de espírito
na constelação, prosperidade e abundância estão ligadas à mãe. o feto no útero tem tudo que precisa. a energia do pai é a de ir pra vida, decidir, se aventurar. tem gente muito decidida que não faz resultado, e gente que faz dinheiro com tudo mas não para em lugar nenhum. na natureza, próspero é o que rende sozinho, a árvore que dá fruto, cai semente e nasce outra.
eu não me achava próspero até alguém me dizer que, mesmo sem conta cheia, tudo que eu queria eu fazia. treinar no melhor box, estudar na melhor escola de constelação. pra mim, prosperidade é espiritual e riqueza é material. é seguir o fluxo da vida sem sentir oposição, como água que encontra outro caminho. e tem muito cuidado disfarçado de controle por aí. o hugo contou que passou um ano falando de prosperidade sem dinheiro nenhum, depois de pedir demissão de gerente de loja e alugar uma casa na beira da praia, e que o dinheiro veio depois. prosperidade é dizer sim pra vida.
aproveitei pra lembrar a teoria do carro branco: o que a gente dá atenção cresce. se você só olha o que é feio, vê mais feio. e quando achar alguém ridículo, pergunta o que dá pra tirar de bom dali. pelo menos tá sendo corajoso. critique fazendo melhor. o expert que é muito bom no que faz chega na rede querendo começar por cima e trava. calça a sandália da humildade. quem já sabe o caminho de ônibus da pituba pra barra vai penar na primeira vez de carro, mas chega mais rápido depois.
repetição é o segredo
o logo da coca-cola é quase ilegível e mesmo assim todo mundo reconhece, porque ela repete o vermelho há mais de cem anos e criou uma garrafa que fala mais que as letras. a gente lê primeiro a cor, depois a forma, depois a palavra. olha seus últimos dez áudios: como você começa, como termina, que palavra repete. eu levanto muito a sobrancelha esquerda quando tô pensando, e a caveira da minha marca levanta uma sobrancelha. não é uma caveira qualquer, é o meu gesto.
isso são micromovimentos, o que você repete e pode virar linha editorial e até movimento. "primeiro seja ok, depois seja foda" é o meu, e o ok virou minha marca. e um perfil só basta, se você escolhe um cliente adulto o suficiente pra separar pessoal de profissional. a menina que não posta que gosta de sertanejo pra não perder seguidor tá afastando justamente quem ia se identificar com ela.
fechei com uma imagem do trânsito entre salvador e lauro de freitas: metade de quem tá ali mora numa cidade e trabalha na outra. se todo mundo trocasse, todo mundo ficaria mais feliz. para de escolher o cliente dos outros, escolhe o seu. e a frase que eu deixaria pro mundo, se o mundo inteiro estivesse ouvindo: escute o seu silêncio pra fazer o barulho que deseja.
quem é a pessoa que você ajuda sem cobrar nada?
fui. 💚


