em outubro de 2018 o vinícius facchini e o andré piazza me receberam no octanage, um podcast que toda semana entrevistava gente comum empreendendo de verdade. foi uma das primeiras vezes que eu sentei na frente de um microfone pra falar de mim, e não do trabalho dos outros. ouvindo de novo hoje, dá pra ver muita coisa que eu ainda carrego, só que com menos palavra difícil, hehe.
design de propósito, de propósito
naquela época eu me apresentava como designer de propósito. o nome era um trocadilho mesmo, sem querer querendo. todo mundo tava buscando propósito, e eu queria fazer um design que ajudasse de verdade quem usava ele. sempre me vi mais como facilitador do que como professor, porque aprender junto, construir junto, reverbera muito mais longe do que despejar conteúdo em alguém.
contei também de onde vem o kerk. meu nome é fabio albuquerque, e kerk nasceu como apelido do sobrenome num dos meus primeiros trabalhos de carteira assinada. pegou. depois virou marca, porque um nome comum some na busca e um nome próprio aparece.
a roça que me construiu
nasci em salvador, mas fui morar pequeno na roça, no núcleo jk, em mata de são joão, uma colônia de japoneses. meus colegas de infância eram quase todos filhos de japonês. a escola era daquelas em que quem sabe ensina quem não sabe, e foi ali que eu aprendi a ler, a escrever, os números romanos, tudo do primário. tinha trabalho pesado, claro, mas foi isso que me fez gente.
saí de lá adolescente, já perto da faculdade, e trabalhei de tudo que você imaginar. atendente de call center, professor de forró, vendedor de loja de roupa, monitor de matemática, promotor da nokia. teve época de ter onze números de telefone, rs. só que desde a minha primeira logo, em 1998, o design esteve sempre junto, associado a qualquer outra coisa que eu fizesse. depois veio a graduação, uma pós em docência porque eu já queria transmitir o que aprendia, e as formações em desenvolvimento humano, como a constelação familiar.
em 2018 eu já trabalhava de casa, com marcas pessoais, perto do meu filho de cinco meses, da minha filha de cinco anos e da minha esposa. e isso pra mim era a maior vitória.
o que as pessoas não sabem sobre marca pessoal
quando o andré perguntou qual era minha maior competência, a resposta foi simples: design. criar identidade pra gente, ler a pessoa e devolver uma imagem que represente de fato quem ela é. todas as formações que eu fiz foram em prol disso, pra enxergar melhor quem senta na minha frente.
e o que quase ninguém sabe é que a pessoa já tem tudo o que precisa. ela só não consegue se escutar, não se vê no próprio espelho. o designer tem um olhar sistêmico. ele não olha só o cliente, olha o filho, a mãe, a comunidade, o lugar onde essa pessoa mora, porque tudo isso interfere na marca. olhar a pessoa em todas as dimensões, a social, a emocional, a espiritual, a intuitiva, é o que faz o trabalho ficar verdadeiro.
o workshop eu sou minha marca
o problema que eu resolvia (e ainda resolvo) é o de quem para num ponto da vida e percebe que passou anos fazendo algo no automático, sem prazer nenhum. a semente disso veio lá do segundo semestre da faculdade, quando um professor me pediu um tema de palestra pro congresso interno. em 2008 fiz a palestra "você é sua marca", sobre se enxergar e atuar como produto.
de lá pra cá percebi que o grande desafio das pessoas é achar a interseção que faz o olho brilhar. de fora a gente vê isso fácil, numa conversa curta já dá pra perceber o assunto que acende a pessoa, o corpo inteiro muda. mas a própria pessoa não enxerga. o workshop com meu parceiro marcelo ficou dois anos engavetado, até ele dizer "massa, vamos juntar isso". eram dois dias, um de prospecção interna e outro de ferramenta, pra pessoa se conectar com ela mesma, achar o nicho dela e usar o marketing pra se posicionar no instagram.
o fundo do poço e o dia da virada
meu pior momento foi infeliz numa clt. a grana era pouca, o tempo era escasso, eu saía de casa com minha filha dormindo e chegava com ela dormindo. na orientação vocacional do terceiro ano eu tinha me visto trabalhando de bermuda e sandália, e todo mundo dizia que aquilo não era coisa de profissional. guardei a imagem.
um dia acordei decidido. fui no departamento pessoal perguntar o que eu precisava fazer pra sair levando algum benefício, porque eu tava com uma mão na frente e outra atrás. a moça me olhou e disse: "espera até terça-feira". era sexta. fui pra casa com um sorriso de orelha a orelha, porque já tinham pedido a minha cabeça. a rescisão e o seguro-desemprego me deram cinco meses de fôlego. já tinha tentado o home office umas cinco vezes antes, juntando design com produção de banda e mais um bocado de coisa. essa foi a definitiva. daquele dia em diante, eu sou isso e acabou.
o propósito já tava aí
a dica que eu dei pra quem tá buscando um caminho continua valendo. receita nenhuma funciona se você não tem consciência sobre você mesmo. para, num lugar tranquilo, e faz uma visualização da sua vida inteira. qual era seu papel nas brincadeiras, nos grupos, o que você fazia quando criança que fazia seu olho brilhar. o propósito não aparece agora, ele te acompanha a vida toda. olhando pra trás dá pra achar o que se repete, o que te deu prazer e que, por alguma crença da família, da religião ou da região, você deixou de lado.
na constelação a gente diz que o propósito chega com o nascimento. e eu costumo dizer na palestra que temos dois grandes momentos na vida: quando a gente nasce, e quando descobre pra que veio. quem descobre o segundo pode fazer a diferença.
jogo rápido
o que me inspirou a empreender foi o desejo de deixar algo maior pros meus filhos e de compartilhar com o maior número de gente possível. a dica mais valiosa que recebi veio de uma coach: olha pra dentro de você. quando parei de olhar pra fora, comecei a tomar decisões melhores.
meu hábito é pensar. na moto, correndo, sentado no vaso (quem não pensa no vaso, né?). e o que eu não vivo sem é surpreender as pessoas. entregar o que pediram e mais um pouquinho, e ver no olho delas. já chorei várias vezes entregando marca, e isso não tem dinheiro que pague.
minha inspiração no design foi o alexandre wollner, que tinha falecido meses antes daquela conversa. tive a sorte de fazer um workshop de dois dias com ele e não larguei o homem, hehe. de ferramenta indiquei o google suite, que eu uso desde 2009 e que deixa uma agência de um homem só com cara de profissional. de livro, "ordens da ajuda", do bert hellinger, que mudou meu jeito de ver a relação com cliente. de série, abstract, da netflix, que mostra como o processo criativo de design dá trabalho de verdade. e de música, "me curar de mim", da flaira ferro, pros dias de introspecção.
a dica de ouro
o que me movia em 2018 eram as pessoas que querem partir pra ação. elas são minoria, e é essa minoria que me inspira. não me vejo como responsável pela mudança de ninguém, sou um meio. a pessoa chega quando precisa e quando pode.
a dica de ouro foi acreditar em si. tem a teoria do carro branco: você decide comprar um carro branco e de repente só vê carro branco na rua. é sincronicidade, é onde você deposita sua energia. e tem os três pilares que a gente vive no trabalho, reconhecimento, dinheiro e prazer. muita gente põe o dinheiro na frente e fica sem os outros dois. põe o prazer na frente. o reconhecimento vem, e o dinheiro vem junto.
oito anos depois, o nome mudou, a barba mudou, mas o que me acende continua o mesmo. e você, já descobriu pra que veio?
fui. 💚


