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conversas

do cansaço à presença, com lucas freire e yang mendes

um psicólogo que estuda flow e burnout e um professor de oratória sentaram comigo no papo worklover® pra discutir se trabalhar com o que ama protege ou adoece, por que a gente vive performando e o que é estar presente de verdade.

por kerkbrander · fabiokerk®
· 58 min de podcast · 12 min de leitura
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esse foi um papo que dava pelo menos três horas pra cada convidado. o lucas freire é psicólogo, pesquisa o brincar e o estado de flow e escreveu o livro "exaustos". o yang mendes é professor de oratória há mais de vinte anos. eu entrei pra perguntar e saí aprendendo.

os números do cansaço

comecei contando de onde vem o worklover. ao longo da vida eu aprendia tudo de um trabalho, me relacionava bem e chegava num ponto em que aquilo me matava todo dia. só se acertou quando fui trabalhar pra mim, e já são treze anos em home office. eu não vejo o worklover como o oposto do workaholic, porque o workaholic usa o trabalho pra fugir de tudo. vejo como o oposto de quem sobrevive do trabalho.

e levei uns dados pra conversa. num levantamento de 2023, 49% dos brasileiros disseram se sentir esgotados emocionalmente no trabalho, 32% dos economicamente ativos tinham algum nível de burnout, 85% dos funcionários não se sentiam engajados e 70% diziam que o senso de propósito vinha do trabalho. a conta em dias perdidos por depressão e ansiedade é de bilhões, e em produtividade passa de um trilhão por ano. pra mim, engajamento tem a ver com paixão pelo que se faz.

o dia em que alguém disse "professor"

o yang se considera worklover demais. era administrador numa ong, ganhava bem, e estudava numa escola de filosofia. deu uma palestra, o diretor gostou, deu outra, e em janeiro de 2005, com 23 anos, assumiu a matéria de ética. uma aluna de uns 50 anos levantou a mão e chamou: "professor". ele disse que se ela tivesse chamado de doutor, presidente ou majestade não teria batido tão forte. na hora só veio o arrepio. depois caiu a ficha: é isso que eu sou. são 21 anos ensinando, e o tempo passa sem ele sentir.

quem trabalha com o que ama pode deixar de amar

o lucas trouxe as camadas que eu precisava ouvir. o brasil tem uma realidade social brutal, e a profissão de professor é das mais precarizadas e com mais afastamento por burnout. o trabalho forma identidade, mas o modelo produtivo de hoje atropela a gente. ele brinca que, nos moldes atuais, se você trabalha com o que ama, logo vai deixar de amar, porque o trabalho carrega um sofrimento que não precisava estar ali. vivemos na era da hiperprodutividade, em que até o descanso virou produção.

ele citou o antropólogo james suzman: em 99% da nossa história como caçadores e coletores, o trabalho não era o centro. a gente trabalhava pra existir e viver o resto, os rituais, a comunidade, a arte. hoje até o hobby parece que precisa virar renda, e isso empobrece, porque não recarrega. e quem é apaixonado pelo que faz é mais vulnerável, porque é fácil ser capturado por essa lógica. quando a frustração vem, vem triplicada: como assim eu tô adoecendo do que eu amo? ele chama isso de síndrome do iron maiden. na adolescência, ser vocalista do iron maiden era zerar a vida. depois ele entendeu que não basta, porque quando entra na esfera produtiva, muita coisa se esvazia.

o yang puxou pro autoconhecimento. quem não se conhece olha pro lado e procura máscara. e o esporte, que devia ser hobby, virou vitrine de produtividade: tirou o cadeado dos 5 quilômetros, dos 10, agora a meia, depois a maratona, o triatlo, o ironman. tem prova de longa duração que desgasta mais a saúde do que dá, ainda mais pra quem é pai e trabalha das oito às seis. ele trabalha muito, mas guarda tempo pro ócio, pra meditar, ler a bíblia, ir à igreja com a esposa, ficar com os filhos. "é desafiador, porque o apaixonado só pensa na paixão."

identidade e coragem de expor

eu disse que o que mais gosto em marca pessoal é que ela não é um símbolo ou uma estrutura de imagem. é a sua identidade e a coragem de mostrar ela, usando ferramentas intencionais pra diminuir o atrito. quanto mais você se conhece, menos atrito. e às vezes a paixão nem tá na tarefa, tá no cliente. o lovenicho® é aquele cliente que vale ficar pro café. com o yang, por exemplo, valeria dois cafés, hehe. e eu repeti os três jeitos de se realizar que eu vejo: empreender fazendo o que gosta todo dia, encontrar uma empresa que te pague pra fazer o que gosta, ou ter um trabalho que banque o que você ama nas folgas, como os soldadores de turno que eu atendi numa indústria, que passavam 12 horas soldando e 48 no restaurante ou na pescaria. tipo aquela propaganda da heineken do choque na geladeira, que o lucas lembrou que vem dos experimentos do skinner.

cativeiros neurológicos

o lucas chama de cativeiros neurológicos o que vivemos hoje. nunca entendemos tanto o funcionamento humano, e isso alimentou algoritmos que diminuem a nossa autonomia. ele foi a um show do ac/dc e comparou com vídeos de 2009: antes a galera pulava, agora todo mundo filmando pra ver depois. no livro ele conta de uma cena no arco do triunfo com milhares de pessoas e milhares de celulares, e pergunta quem ali tava vivendo o agora. a atenção virou o grande ativo, e o flow tá sendo sequestrado.

o yang lembrou de sêneca, há dois mil anos, falando de quem está num lugar com a mente em outro. tem gente velha de idade que viveu poucos anos. e eu contei de um exercício das dinâmicas sistêmicas que me impressiona toda vez: a pessoa senta na ponta da cadeira, você pergunta algo do passado ou do futuro e empurra o ombro dela, e ela cai mole. depois você pede pra ela sentir o cheiro, a textura, o som, empurra de novo sem ela fazer força nenhuma, e não consegue mover. presença no corpo é força. o yang chamou o excesso de informação de obesidade informacional. sem presença, a palavra perde valor e a vida fica performática.

polarização e a opinião de quem sabe pouco

perguntei ao yang como ele fala de temas da moda sem perder a verdade dele. ele vê a polarização como falta de diálogo, e a falta de diálogo como falta de presença. quem não sabe quem é se agarra a um rótulo. ele prefere dizer: "eu sou o yang, que nesse momento da vida acredita que tal visão faz mais sentido". aí dá pra sentar com quem pensa diferente. e trouxe platão: a base do conhecimento é a doxa, a opinião comum, e quanto menos a gente sabe, mais a gente opina. quem sabe diz "pera aí, acho que não é bem isso, mas também não sei tanto".

o lucas repetiu uma frase que ouviu: "quem me dera ter uma profissão que não precisasse de rede social". pra gerar percepção, muita gente precisa deixar de ser quem é, repetir meme, seguir método, e isso exaure. o yang resumiu: ser você não cansa, sustentar quem você não é desgasta. e eu lembrei da minha imagem da sala, em que autenticidade é quem você é independente de quem esteja na sala. o yang ainda alfinetou o marketing digital, que embalou tudo isso pra vender: "é gatilho mental, não é abraço mental".

doses de loucura

o billy, que faz o bahiacast, entrou com uma pergunta. ele contou que o livro do lucas ajudou num momento em que tava com câncer e não sabia, e que o yang ensinou muito a ele nesse mundo de podcast. perguntou ao lucas se é preciso lucidez. o lucas riu e disse que precisamos é de loucura. lembrou de alice, que entra na toca do coelho e encontra um mundo estranho, o da autenticidade. o controle hoje é mais sutil e mais cruel do que o controle disciplinar de antes, com publicidade que exacerba medos pra vender o produto na sequência. o yang completou: antes era preciso rebeldia contra as instituições, hoje é preciso rebeldia pra ser você mesmo.

por que gente inteligente trava

o yang respondeu que é autocobrança e medo do que os outros esperam. a gente nasce num processo de rejeição, o nascimento é uma expulsão, e vai buscando aprovação por não ter se aceitado. na frente de muita gente, a pessoa não sabe quem ser pra ser aceita, e não quer ser quem é com medo de ser rejeitada. "se eu for rejeitado sendo quem eu sou, o que resta pra mim?". o lucas lembrou que isso piora numa cultura de julgamento constante.

contei do meu grupo terapêutico masculino, que faz dez anos em junho. começamos oito, hoje somos cinco, três horas por mês. lá a gente aprende que a raiva do amigo que faltou sem avisar, no fundo, era "eu gosto tanto dele e queria que ele estivesse aqui". homem não aprendeu letramento emocional. o lucas perguntou quantos desses homens viraram líderes tóxicos justamente por não saber lidar com as próprias emoções. o yang lembrou das mulheres que sentem que precisam se masculinizar pra competir. e o lucas indicou a série da fórmula 1, no episódio da sauber, em que um gestor que criou um ambiente mais leve foi chamado de fraco e, segundo ele, teve o melhor resultado em anos.

eu contei que meu cunhado já me zoou por ir embora quando minha namorada chamou, e eu respondi que é importante pra mim fazer o que ela deseja também. desarma. e com meus filhos eu sempre disse que papai também sofre, chora e sente medo. a diferença é o que a gente faz com isso.

atrofia lúdica e a moda do propósito

perguntei ao lucas se estamos cansados ou sem sentido, e o que ele acha dessa "propositologia" vendida como coisa lúdica e linda. ele disse que funciona como tentar boiar: quanto mais força, mais afunda. quando a gente acha que um horizonte é a bala de prata, aumenta a frustração com o agora. ele chama de atrofia lúdica o que a nossa geração viveu a partir dos anos 2000, com a perda do brincar livre. o play, que ele pesquisa, tá no brincar, no esporte, na arte, no contemplar. aparentemente não tem propósito, mas constrói propósito por dentro, a motivação intrínseca, aquela de fazer porque faz. e quanto mais empobrecida a sua presença, mais você precisa de um sentido maior. quem pensa no sentido da vida enquanto tá vivendo de verdade? as empresas perceberam e passaram a vender propósito, e quando a vida real não entrega, vem mais frustração.

eu contei que pinto quadros só pra mim, sem pensar em vender, e tô fazendo aula de canto sem querer cantar em lugar nenhum. e que a vida toda me zoaram por dançar. hoje eu namoro porque chamei pra dançar numa festa, hehe.

o flow é a onda, o play é o oceano

pra mim, flow é quando você deixa de ser alguém dançando e vira a própria dança. o yang chama isso de integralidade e usa "my way" no curso, a música de quem bancou o próprio jeito e colocou no mundo a própria voz, não a voz de quem o põe de joelhos. ele faz uma diferença que eu adorei: roupa comunicativa adapta você ao ambiente, máscara te esconde. e o elogio que ele mais gosta de ouvir é "nem senti o tempo passar". teve aula que acabou às onze e dez da noite de uma quinta, e o pessoal ainda tava conversando na sala.

o lucas explicou o flow assim: o flow é a onda, o play é o oceano. pra entrar em flow você precisa de um objetivo claro, de um equilíbrio entre desafio e habilidade (desafio demais vira ansiedade, de menos vira tédio) e de retorno em tempo real de como você tá indo. o scrolling faz isso com a gente o tempo todo. ele lembrou do ayrton senna em mônaco, dizendo que ele e o carro viraram uma coisa só, num túnel. o pesquisador do flow, csikszentmihalyi, chama isso de fluir.

aí eu fiz o advogado do diabo: lindo, mas eu preciso pagar conta. se eu ficar no flow brincando com meu filho até as duas da manhã, não rendo no trabalho. o lucas respondeu que flow não é sobre gostar da tarefa, gostar é consequência. e que o maior potencial de flow tá justamente no trabalho, onde você resolve problema e testa seus limites. só que a gente construiu um trabalho cheio de sofrimento desnecessário, com líder que governa pelo medo. tem gente que entra em flow fazendo planilha, lavando prato, ou descendo uma montanha todo arrebentado e dizendo que foi incrível. é a experiência como fim em si.

a paixão que salva e que adoece

a paixão salva do burnout ou causa? as duas coisas, e o lucas é o próprio exemplo. ele trabalhava com orçamento numa fábrica muito tóxica e foi convidado a dar aula na sexta, no último horário. chegou e tinha cinco alunos de quarenta, que já avisaram a hora do ônibus. ele se deu um desafio: tornar a aula tão boa que eles quisessem ficar. vieram dez, quinze, e a faculdade foi dando mais matérias. de dia ele tava em luta ou fuga, de noite em flow, chegando em casa às onze reenergizado pra acordar às cinco. apareceu um buraco na barba, alopecia por estresse, e ele, psicólogo, disse ao médico que tava no melhor momento da vida. um dia, voltando pra casa, bateu o carro num poste perto de casa, perda total. era burnout.

ele lembrou do filme "soul", da pixar, com as almas presas no flow. quem só tem flow no trabalho vai repetir aquilo até o trabalho perder a capacidade de dar flow. por isso precisamos de outros pontos de contato. talvez seja por isso que o bruce dickinson pilota avião e luta esgrima. recrear pra recriar.

o tempo é rei

perguntei ao yang como diferenciar quem se comunica de quem performa. ele disse que o sinal é o tempo, porque performar não se sustenta. a performance costuma ter excesso, sério demais ou expansivo demais. e contou que viu o lucas pela primeira vez no banheiro de um evento, com um tênis diferente, e pensou: esse deve ser palestrante, será que é persona? cinco minutos de palco e ele soube: é ele.

no fim, pedi uma dica pra cada um. o lucas disse pra voltar a ser amador: desconecte do objetivo, não tente ser bom em tudo. o yang lembrou que o tempo escorre pelas mãos e cantou, de brincadeira, aquele lulu santos de "vamos viver tudo que há pra viver", jurando que foi ele quem sugeriu ao luiz maurício gravar, hehe.

e você, onde ainda consegue ser amador?

fui. 💚

gostou? manda pra quem precisa ler.
carta do kerk

um lampejo por e-mail, quando valer.

sem frequência fixa e sem encher sua caixa.

do silêncio ao barulho

se você não escolhe quem é, o mundo escolhe por você.

e quando o mundo escolhe, ele simplifica, rotula, empacota. sua marca começa com uma escolha, antes de qualquer post. bora?

onde há paixão, não há imitação.

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