quando o afeto vira negócio, com edgard abbehusen
o escritor que saiu do quartinho em muritiba pra mais de um milhão e meio de leitores contou no papo worklover® da proposta de bet que recusou, do pseudônimo que largou, da irmã que mora numa cama há 36 anos e do abraço que esperou vinte anos da mãe.
eu abri esse papo worklover com uma ideia que repito muito. nossos pais, avós e bisavós trabalharam por obrigação e quase nunca puderam escolher. hoje, com a internet, acho que a melhor forma de honrar esse esforço é fazer o que a gente ama. e recebi alguém que eu admiro desde a primeira vez que li: o edgard abbehusen, o dom edgard, que uma amiga me apresentou como o primeiro de salvador a passar de um milhão de seguidores escrevendo texto. eu não consigo apresentar ele com outra palavra que não seja afeto.
um trabalho acadêmico que virou um milhão
ele contou que tudo começou sem intenção, como um trabalho acadêmico que desaguou no instagram. os textos eram sobre os sentimentos dele, desilusões, amores, angústias. as pessoas liam, se reconheciam, desabafavam com ele, e as histórias delas foram alimentando os textos seguintes. "eu fui entendendo que eu não escrevia só o que eu sentia. eu tava sentindo o que eu tava escrevendo." em maio ele faz dez anos de instagram, com quatro livros de crônicas, três infantis e palestras. um texto dele chegou a ser usado por um político numa indireta que foi parar no noticiário nacional. e tudo isso começou no quartinho da casa da mãe, em muritiba, no interior.
contei como a minha sogra me pediu ajuda pra comprar um livro do edgard de presente pra filha dela, minha namorada. o livro chegou, a gente deitou, eu cheio de intenção, e ela resolveu ler o primeiro texto, um recado pra criança interior. terminou o primeiro parágrafo chorando, e eu tive que esperar uns bons minutos, hehe. o edgard morreu de rir e disse que o retorno do livro demora, enquanto o do instagram chega em meia hora no direct. a frase que ele mais lê lá é "esse bateu".
ele não tem problema nenhum em dizer que os textos dele são simples. um professor dizia que quem quer ser profundo demais entra num poço e ninguém acha mais. muita gente tá tão atolada de boleto e problema que ninguém em volta diz o óbvio que ela precisava ouvir, e aí ela abre o instagram e lê. o livro é mais cuidadoso. o instagram é um jogo, numa plataforma que não é dele: pensar o gancho, o horário, o tema. e a única função ali é vender livro.
a proposta da bet
ele contou que recebe muita proposta de casa de aposta. uma vez levou a conversa adiante por curiosidade, foi pro whatsapp, número internacional, e a oferta era um valor na assinatura que resolveria metade dos problemas dele, mais comissão sobre o que os seguidores perdessem ou ganhassem. tinha 36 anos, dois filhos, e balançou. mas pesaram os princípios pessoais, e ele faz questão de dizer pessoais, porque não julga quem aceita. pouco depois um grande amigo dele passou por uma situação muito difícil por causa de jogo, e ele parou de responder. eu confessei que já julguei muito, até um amigo lembrar que sacanagem só é sacanagem quando a gente não tá dentro.
ele disse que não se considera influenciador. eu expliquei os quatro níveis que uso: popularidade é ser conhecido, influência é quando param pra te ouvir, autoridade é quando acreditam em você, e referência é quando você vive o que fala e inspira pelo exemplo. pra mim, o edgard tá no último.
muritiba, o afeto antes do nascimento
perguntei quando o afeto entrou na vida dele, antes de virar negócio. ele respondeu que antes de nascer, em muritiba, onde todo mundo se conhece. cidade pequena tem a fofoca, o disse me disse, a dependência da política, porque a maior indústria da cidade é a prefeitura. ele trabalhou lá treze anos e foi candidato a vereador, perdendo por menos de noventa votos. hoje agradece a esses noventa, hehe. muritiba tem uns 30 mil habitantes e ele tem mais de 1,6 milhão de seguidores.
em menos de um ano de instagram, uma editora ofereceu publicar o primeiro livro sem custo nenhum e lançamento em cinco capitais. artistas enormes repostavam os textos. só que ele escrevia sob um pseudônimo, com uma lâmpada na foto de perfil, porque tinha vergonha de aparecer. as pessoas achavam que era uma página. a editora insistia pra ele assinar com o próprio nome. e no primeiro contato cara a cara com os leitores veio a pergunta que mais incomodava: "você é muito novo, de onde vem essa inspiração?". ele já tinha autossabotagem, ia pro fundo do quintal da mãe agradecer olhando o céu estrelado do interior e se perguntava se merecia tudo aquilo, se era escritor de verdade ou só escritor de instagram. eu disse que já não basta o nosso complexo de vira-lata, ainda tem gente instalando síndrome do impostor na criança.
no lançamento no rio, em 2017, a livraria tinha uma fila de gente de 35, 40 anos pra cima, senhoras de cabelo branco e colar, enquanto no mesmo horário, em outra livraria, lançavam uma biografia da fernanda montenegro. ele chegou a achar que o pessoal tinha errado de lançamento. a editora entendeu ali que o público dele era muito diverso, e que o próximo livro tinha que levar o nome dele.
a cidade que escreve junto
foi nessa época que ele voltou às raízes, e entendeu que escreve com a cidade. a escola onde estudou, a rua do sertão, a praça, os vizinhos, os professores que deram as ferramentas. quando dizem que ele ficou maior que muritiba, ele responde que é o contrário: "se eu perco muritiba, eu perco tudo". ele adora uma frase sobre o interior: lá você às vezes não sabe o nome da pessoa, mas sabe de quem é filho e onde mora, e se ela passar mal na rua, sabe quem chamar. quando veio morar com a irmã em salvador, ela não sabia quem era o vizinho de porta depois de oito anos no prédio.
eu contei que, toda vez que me mudo, bato nas portas do lado e me apresento. quando fui morar sozinho depois da separação, avisei a vizinha que uma semana teria barulho de criança e que ela podia me mandar mensagem. minha mãe sempre disse que não se briga com vizinho, porque se alguém passar mal de madrugada, é ele quem vai estar perto.
aline
e aí o edgard contou da casa. o pai dele tinha dez filhos de um primeiro casamento, ficou viúvo, criou todos e, quando eles já estavam casados, decidiu construir uma vida nova. conheceu a mãe do edgard, também viúva. quando o edgard nasceu, em 1988, o pai tinha 67 anos. um ano depois nasceu a aline. meses depois, uma febre, uma internação, uma negligência médica. a aline fez uma cirurgia pra colocar uma válvula no cérebro com 1% de chance de sobreviver, e sobreviveu. disseram que não passaria dos cinco anos, depois dos dez, dos quinze. teve pneumonia bilateral, perdeu parte do pulmão. hoje ela tem 36 anos, em estado vegetativo, e as enfermeiras se espantam com a pele dela, de bebê, sem uma ferida. "tinha muito afeto ali."
a mãe, que entrou no hospital com uma filha saudável e saiu com a filha assim, criou os outros numa bolha, com medo de tudo. na adolescência ele começou a bater de frente, ela interferia nos relacionamentos dele, o muro foi crescendo, o pai faleceu. ela sempre foi focada em concurso público, e quando abriu uma agência da caixa ao lado de casa, queria o filho lá dentro, porque recebe a pensão do marido pela caixa. no lançamento do primeiro livro, disse que não ia. chegou no fim e abraçou ele. foram mais de vinte anos sem esse abraço. "a gente só ama e respeita aquilo que conhece", ele disse, e foi entender as feridas da mãe e o esforço dela pra dar um amor que nunca recebeu. hoje ele sabe que escreve com a cidade, com a mãe e com a irmã.
salvador e a falta de abraço
ele falou, com cuidado pra não parecer pedante, que salvador não abraça o trabalho dele. teve mais de 190 milhões de visualizações num mês e nunca foi convidado pra bienal do livro da bahia. a bahia tem um programa de feiras literárias admirável, mas este ano as feiras que ele vai são em alagoas, um estado que já rodou quase todo em palestra. todo mundo diz que ele precisa ir pra são paulo ou pro rio, e ele não quer sair do nordeste pra ser reconhecido. pensa em ilhéus, alagoas, joão pessoa.
eu contei que vivi a mesma coisa. as três regras que adoto são hierarquia, pertencimento e equilíbrio, e eu sempre olho pra dentro primeiro: quando fui síndico, antes de contratar um administrador, perguntei se algum porteiro podia assumir. num congresso de branding em salvador, vi mais de 20 palestrantes, uns quatro com marcas que eu tinha feito, e eu não fui chamado. em bar já me disseram que me conhecem de um grupo de branding de são paulo sem saber que eu sou daqui. salvador é cruel com os próprios artistas, cheia de clubinhos. tem gente que muda o ddd pra 011 pra ser contratada na própria cidade. pernambuco, até pelo ariano suassuna e o "não troco meu oxente pelo ok de ninguém", tem mais orgulho do que é seu (no meu caso, meu ok é meu, hehe).
os dois cliques
ele lembra de dois momentos em que a coisa ficou séria. o primeiro foi chegar a 10 mil seguidores em três meses, em 2016, quando nem existia stories. ele postava cards cheios de texto porque queria formar leitores. trabalhava na prefeitura e coordenava duas campanhas eleitorais ao mesmo tempo, e bateu os 10 mil no dia de uma convenção partidária. deu pânico. pediu ao professor de literatura dele pra revisar os textos antes de postar, porque às vezes passava erro de quem escreveu meia hora antes.
o segundo foi quando levava um amigo, hoje padrinho do filho dele, a uma clínica de olhos numa cidade vizinha. na recepção, recebeu uma mensagem enorme de uma mulher casada, elogiando o marido, contando que se apaixonou por um colega e perguntando se devia contar. ele sentiu o frio na barriga e o ego subindo. não respondeu. semanas depois escreveu um texto sobre aquilo, sem citar ninguém, e viralizou. entendeu que os textos se alimentavam do que as pessoas confiavam a ele. parou de dar conselho em live, porque não é psicólogo nem terapeuta, e as pessoas já estão expostas a muito golpista. "o maior patrimônio que eu tenho são meus seguidores." toda parceria comercial que ele faz é com o texto aparecendo, não ele.
e ele sempre pede a deus pra manter o pé no chão, porque chegou a 10 mil, a 100 mil, sem aparecer. "foi o dom que me fez chegar aqui, não foi essa carinha." raramente alguém reconhece ele na rua.
só um pingo
eu expliquei que marca que não é pessoal cresce mais rápido no começo, porque não depende do rosto de ninguém, mas o vínculo com uma pessoa é mais fiel e duradouro. a imensa maioria das decisões vem de indicação de gente, não de propaganda. e quem troca o pseudônimo pelo próprio nome perde seguidores no início e fica com os leais.
muito guru diz que você precisa aparecer, gravar vídeo, falar. eu dou o exemplo do edgard e do carpinejar, que escreve num guardanapo e posta a foto. e quando desenvolvi a marca dele, uma das filosofias que surgiu foi "só um pingo". ele explicou: lembra da propaganda da pasta de dente em que o reynaldo gianecchini dizia que bastava um pingo, enquanto as outras marcas mostravam a escova cheia? "às vezes basta um pingo, gente." as pessoas querem inventar a roda na rede, e o mais importante é que os outros sentem quando não é verdade. muita gente olhou o trabalho dele e achou que era só fazer igual, porque é óbvio. fizeram, não cresceram e se perderam.
ele também falou da importância exagerada que a gente dá ao amigo que não curte. às vezes o algoritmo simplesmente não mostrou. quando ele foi ao "sem censura", valorizou muito quem mandou mensagem, e percebeu que na dor você recebe cinquenta directs, mas na conquista poucos se mexem. eu lembrei que na vítima a gente tem companhia e no sucesso fica sozinho, e contei da minha avó, que tinha pânico de dormir sozinha. quando alguém perguntou se ela toparia perder o medo sabendo que ninguém mais ia se preocupar, ela fechou a cara e mudou de assunto.
a casca e as amizades
o billy perguntou se ele prefere a tristeza, que atrai abraço e gente se aproveitando, ou a felicidade, que atrai inveja. ele disse que cada pessoa tem um papel e que aprendeu, depois de muita pancada, que nem todo mundo quer seu bem. chegou em salvador "tabaréu", encantado com convite pra inauguração de restaurante, achando que tinha que ir a tudo. ouviu que era arroz de festa. ganhou três dias de camarote no carnaval por um trabalho, curtiu como quem nunca tinha visto aquilo, e ouviu que tava deslumbrado. "por que a gente tem que perder o deslumbramento com as coisas?" foi se deixando polir, se afastou de todo mundo, criou uma casca dura nos últimos três anos, e hoje trata isso na terapia. mas citou com carinho os amigos que defendem o nome dele mesmo sem se ver sempre.
eu indiquei "o cavaleiro preso na armadura" e lembrei que a gente não dá conta de mais do que umas 150 relações próximas na vida. amigo é amigo, colega é colega, seguidor é seguidor, cliente é cliente. ele contou que parou de dar parabéns no stories, porque lembrava de um e esquecia do outro, hehe.
bate-bola
fiz umas perguntas rápidas. o afeto mais difícil que ele já praticou foi reconstruir relações, porque a gente só reconstrói o que importa, e às vezes precisa passar por cima de muita coisa pra manter o pouco que resta. o abraço da mãe ele poderia ter dado e esperou vinte anos pra receber. a frase bonita que mais destrói relacionamento? "depois eu faço" (e eu achei por um segundo que ele ia responder depois, hehe). o não mais difícil de dizer é pros pedidos de texto de aniversário. o limite entre escrever e performar emoção é sentir. o que destrói mais, falta de amor ou de verdade? de verdade.
sobre fé, ele se diz espiritualista, sempre gostou do espiritismo, que deu conforto pra perguntas como a da irmã, e há mais de um ano frequenta uma igreja evangélica sem compromisso, ainda com resistência ao preconceito e à mistura com política. ele dá palestra em qualquer lugar, tem amigos de religiões de matriz africana e celebra casamento homoafetivo. quer estar onde se sinta confortável com deus. "coloca o pé que deus coloca o chão."
sobre ver os próprios textos rodando sem crédito, recitados por gente famosa ou reescritos por inteligência artificial, ele aprendeu a desapegar. "ou eu desapego disso ou eu paro de produzir, e meu propósito é maior que os meus créditos." mas pede: quem recitar, ponha o nome do autor no vídeo, como se põe o compositor de uma música. eu contei que também tive post copiado na íntegra e que muito aluno meu de design replicava minha estética sem perceber.
sobre paternidade, ele foi pai da letícia aos 18, recém-saído do ensino médio, e a mãe ajudou a criar, com a mão firme de sempre. eu também voltei pra casa da minha mãe aos quarenta e sei como é a hierarquia lá dentro. o mateus nasceu na pandemia, e ele achou que ia tirar de letra, e não é assim. criar um menino hoje pede cuidado com o homem que a gente entrega pro mundo, com tanta notícia de homem que não sabe ouvir não.
quando o afeto vira ego
a última pergunta foi quando o afeto vira ego. "quando você se acha maior do que aquilo que você escreve." o ego visita a cada degrau: posso entrar, posso sentar, posso tomar um café? ele se policia. antes de cada palestra pede que alguém seja tocado pela história dele. contou de uma mulher que mandou mensagem e ele não viu, com uma filha atípica e o marido que tinha morrido de câncer dias depois do diagnóstico. na palestra, ele escolheu uma pessoa da plateia pra uma dinâmica, sem saber de nada. era ela. saiu de lá com o ego lá em cima, entrou no carro e respirou: não sou eu, eu sou instrumento. eu completei que o ego pode ser amigo se ficar do lado. na frente, tampa a visão. atrás, não protege. e lembrei da frase que circula por aí: na internet é leão, ao vivo é gatinho.
a mensagem final dele foi pra não perder a esperança num mundo de guerra, desesperança e guru vendendo o que não é. tem muita gente boa em salvador, competente e de coração bom, e ele pede que empresários, marcas e curadores olhem pra cá. todo mundo tem um lado ruim e um lado bom, e cada pessoa ocupa um lugar na nossa vida. saber quem é quem é uma forma de se proteger. e fechou com a frase que ficava embaixo da capa do perfil dele, lá no começo: só o amor une pessoas especiais.
pra quem você ainda tá devendo um abraço?
fui. 💚


