o primeiro episódio do papo worklover não podia ser com outra pessoa. eu tinha duas opções: começar pela origem do podcast, chamando o billy, que faz o bahiacast, ou começar pela minha origem. escolhi a segunda, porque pra mim a ordem das coisas importa. o edj braga foi a primeira pessoa que olhou pra mim e disse que eu podia ser sócio dele. isso foi em 2005, na criação da cabrueira. eu já tinha sido aluno dele em 2003, passei duas vezes pela escola de dança, e de lá pra cá são mais de 20 anos de amizade.
o dia em que não deu pra fazer outra coisa
perguntei em que momento ele percebeu que a dança era trabalho. ele contou que demorou. a cabrueira nasceu leve, de quem gostava de dançar e era aluno da forroziano, a escola do fabiano. o clique veio quando ele não conseguia mais se ver fazendo outra coisa. "se eu quero viver da dança, eu preciso transformar isso em um negócio", lembrou. turismólogo de formação, foi fazer um mba em marketing, porque não dá pra romantizar viver de arte e ter boleto pra pagar.
o estilo próprio também não foi planejado. ele dançava diferente, com mais perna do que braço, e as pessoas começaram a dizer "isso é estilo cabrueira". ele só percebeu depois: a cabrueira não era só um grupo, era um jeito de dançar.
a mãe preocupada com os 50 anos
hoje tem pai que sonha com filho dançarino, graças ao fitdance e ao tiktok. no começo dos anos 2000 não era assim. o edj tem 45 anos e cresceu ouvindo que filho tinha que ser doutor. a primeira pergunta da mãe dele foi: e quando você tiver 50 anos, vai estar dançando? mas veio junto o apoio. os pais dele são empreendedores. o pai começou como cobrador de ônibus e virou sócio da empresa, a mãe teve lanchonete, e ele cresceu fazendo sanduíche e vendo os dois correrem atrás. hoje ele se define como empreendedor da dança e da cultura, e isso acalmou o coração da família.
quando abriu a primeira escola própria, em 2017 ou 2018, não tinha um real na conta. foi na cara e na coragem, e hoje a cabrueira caminha pra quarta escola. em casa, nos tempos difíceis, os pais foram o banco dele, e ele sempre pagou de volta. eu lembro do apartamento cheio de gente e da camisa da cabrueira que a gente lavava todo dia pra usar em todas as festas.
do palco das bandas ao palco do festival
a cabrueira nasceu já com outros serviços em volta: evento, produção cultural, dançarino em show. o edj lembrou que durante oito anos o grupo dançou com o estakazero, e o léo sempre entendeu a dança como aliada do forró o ano inteiro. teve dançarino da cabrueira com muita banda grande do forró. mas a virada recente foi outra: a cabrueira deixou de estar no palco da banda e passou a ser a atração. ele criou um show próprio, oferece pra prefeituras e já foi contratado assim. o forró agora tem festival em outubro, novembro, dezembro, e a dança vira produto.
ele também passou oito meses em são paulo trabalhando com eventos de luxo, casamento de três milhões de reais. "como é fácil trabalhar com evento com o povo que tem dinheiro", riu. de lá trouxe contatos e uma lição: quem empreende nesse segmento quase não dorme. ele diz que trabalha 24 horas e que as férias são os festivais e as viagens pra europa, onde a cabrueira dá workshop desde 2010. a primeira foi como jurado de um concurso internacional de forró. e ele contou que no começo os europeus estranhavam o abraço, e hoje isso já é normal. o forró levou aconchego pra lugares onde abraçar era complicado.
homem dançando com homem
uma coisa que me marcou como aluno, e que eu acho que toda dança deveria ter, era o homem dançar com outro homem na aula pra entender o que é ser conduzido. eu sempre tive dificuldade pra aprender, e aquilo mudava tudo. o edj contou que fez isso porque tinha condutor sendo agressivo, e ser conduzido não é fácil: você precisa entender o outro pela linguagem do corpo. no começo teve estranheza e piadinha. ele foi quebrando o tabu, deixando cada um à vontade, e hoje é normal ver homem dançando com homem e mulher com mulher nos eventos. e tinha o cara que chegava querendo aprender a dançar pra paquerar. na primeira semana mudava, se apaixonava pela dança e esquecia da paquera.
o kerk nasceu num pôster da cabrueira
o edj se acha tímido, acredite. um amigo uma vez disse que ele é muito mais animado e brincalhão do que mostra nas redes, e ele tá aprendendo a se mostrar mais. o nome edj, aliás, veio de um professor do mba, que sugeriu acrescentar o j em ed. o nome dele é ed gladson braga. e eu também sou braga.
contei de novo a história que eu adoro: em 2005 eu precisei fazer um pôster da cabrueira e o edj disse pra eu assinar. eu não queria assinar fabio braga. meu apelido no trabalho era kerk, por causa do albuquerque, e eu tava em dúvida entre kerk e albuk. ele disse que kerk era mais sonoro. foi a primeira vez que eu assinei fabio kerk. eu era o cara do design, da marca e das planilhas, hehe.
a marca da cabrueira tem história também. ele chegou com o desenho pronto, a cabeça com o chapéu de lampião e a estrelinha. eu fiz, e com a ousadia que eu tinha, coloquei no fundo da apresentação uma outra opção, com três bonecos, porque um é único, dois é sim ou não, e três é reticências. ele mostrou em casa e todo mundo comentou a outra. me ligou bravo: não me deixe confuso! (mas confessou que também gostou.)
chinelo de couro ou cabrueira
o grupo quase se chamou chinelo de couro, porque todo dançarino de forró usava calça de saco e chinelo de couro comprado na barroquinha. numa roda de conversa no aeroclube, o sávio, que cantava na época, soltou: se eu tivesse um grupo, ia se chamar cabrueira. o edj se arrepiou e decidiu na hora, sem nem saber o significado. depois descobriu que vinha de uma música de forró, em que cabrueira é o bando, a galera do forró. a inauguração foi em 3 de abril de 2005. se você não viveu o forró de quarta e de domingo no aeroclube, não teve uma juventude saudável em salvador, hehe.
e aqui entra o meu lado de naming. muito negócio morre no nome. chinelo de couro é descritivo, poderia ser qualquer coisa, e se um dia ninguém usasse mais chinelo de couro, perdia o sentido. cabrueira pode virar marca de roupa, de acessório, até nome de carro. e tem uma história muito mais gostosa por trás. o edj completou que teve sorte de estar numa roda e saber escutar.
a bênção do fabiano
pedi pra ele contar uma parte que pouca gente de fora sabe. o fabiano, que trouxe a dança do forró universitário pra bahia, tava focando na banda e o grupo de dança da forroziano tinha ficado órfão. o edj pediu umas três vezes pra tomar conta e o fabiano não quis. aí ele disse que queria montar o próprio grupo, mas só com a bênção dele. o fabiano deu uma mordida na cabeça dele, como fazia com as pessoas, e disse: "ed, toque o seu sonho, eu vou te apoiar". na inauguração da cabrueira, a forroziano tocou e tinha mais de 60 pessoas com a camisa da cabrueira seguindo a banda. depois o fabiano subiu num palco com a camisa da cabrueira e disse que ela era filha da forroziano. o edj leva isso em todo discurso que faz. o fabiano partiu cedo, de um jeito que ninguém esperava, e deixou um legado que tá em todos os grupos que nasceram dali.
o próprio edj chegou no forró pela dança, não pela música. ele vinha da lambada, já tinha participado de concurso em porto seguro, e quando viu o giro no aeroclube quis aquilo. no primeiro dia de aula já foi pra turma intermediária, virou instrutor, e um dia o fabiano viajou e disse que o aulão seria dele.
onde há paixão, não há imitação
eu sempre vi o edj como uma borboleta em ascensão. todo aluno que achava que tinha chegado no que ele dançava olhava pra frente e ele já tava lá adiante. e é isso que eu digo: onde há paixão, não há imitação. quem ama o que faz evolui naturalmente, porque consome aquilo o tempo todo.
muitos grupos nasceram da cabrueira, e nem todos saíram do jeito que ele saiu da forroziano. ele falou disso com cuidado. acha importante ter outros grupos, citou a elba ramalho ("no céu cabem todas as estrelas"), e já deu marca pronta pra um ex-aluno abrir o próprio grupo. o que ele pede é sair pela porta da frente. "não posso esperar do outro o que eu faria", disse, e contou que hoje, mais maduro, daria menos peso a essas saídas. lembrou do sertanejo, que virou potência quando os concorrentes se uniram.
eu acrescentei o que vejo em todo mercado: o aluno vê o 1% do palco e acha que faria diferente, sem enxergar os 99% de bastidor. e quando abre o próprio negócio, vai buscar quem já tá no forró, em vez de criar pra quem nunca dançou. concorrência prostitui, parceria educa.
a dança que cura
hoje a cabrueira é sobre conexão. depois da pandemia as aulas cresceram, porque as pessoas entenderam que precisam cuidar da saúde mental, e a dança ajuda. tem muita mulher que se separou e foi pra lá refazer amizade, e muita gente que volta anos depois.
uma das coisas que mais me emocionaram foi um espetáculo da cabrueira num teatro do pelourinho, com casais surdos dançando. eu chorei. não sabia que surdo dançava mais no ritmo do que eu. o edj contou que isso começou com o tj, que era aluno, virou professor, é psicólogo e intérprete de libras, e levou seus alunos surdos pra cabrueira. depois ele preparou o alberto, que é surdo, pra dar aula. a cabrueira teve aula de dança com professor surdo. e o vitor, marido do edj, que tem surdez profunda, trabalha no atendimento do grupo. tem até uma sorveteria em aracaju, com todos os atendentes surdos, que tem um sabor chamado cabrueira por causa disso.
ele contou de um aluno com perna mecânica que disse que ficou na cabrueira porque ali olharam pra ele, não pra deficiência. de uma aluna que dança muito e vai em todas as viagens, de uma advogada sem parte do braço que gira como ninguém. e eu admiro demais que o edj nunca se vitimizou por nada. pra ele isso é natural: ele vê gente.
o que ninguém vê
pra quem quer viver de dança, ele dá três recados: não romantizar, profissionalizar e não desistir na primeira pedra. e se pudesse falar com o edj do começo, diria pra dar menos importância aos tropeços. "se eu tivesse a maturidade que eu tenho hoje, talvez aquilo nem tivesse acontecido."
as dificuldades que ninguém vê são duas. a sazonalidade, porque dezembro, janeiro e fevereiro param, e a desvalorização. empresa grande ainda liga oferecendo visibilidade, microfone e comida de graça. "não tô passando fome não, lindo", ele responde. e dói ouvir que gastaram 50 mil na banda e não sobrou nada pra dança. a estratégia dele é dar o "preço de custo", que é o preço normal. ele diz muito não, e pede que os outros grupos cobrem também, porque quando um diz não e outro vai de graça, ninguém sai do lugar. no começo ele dançou por 30 reais no palco, com um propósito: abrir caminho pra que hoje todo mundo possa cobrar. e tá funcionando. a timbalada contratou a cabrueira pra um evento de forró, e no meio do show pediram pro edj puxar o arrasta-pé. a cabrueira sai até no carnaval, pra mostrar que na terra do axé também se arrasta o pé.
gente que vestiu a camisa
ele foi generoso comigo. disse que enquanto ele pensava em grupo, eu pensava em empresa, e vivia falando de cnpj. citou também a ana júlia, da escola cafeína, e a milena coelho, designer, entre muita gente que vestiu a camisa. hoje ele nem dá mais aula regular, faz workshop, e precisou sair da casinha da sala de aula pra enxergar a cabrueira inteira. no primeiro mês do grupo, fizemos um evento pago pra uma joalheria. a mãe dele decorou tudo com febre, os amigos viraram recepcionistas e eu fui dançarino. e ele lembrou da kátia e da aline, que estavam naquela roda no aeroclube e incentivaram a criação do grupo. eu, que era tímido, dancei pela primeira vez numa festa com a kátia, depois de meses de aula particular escondido.
por isso eu deixo um recado pra quem é pai ou mãe: apoia o sonho do seu filho, mesmo sem entender. se der errado, você tá ali pra ele aprender. senão, coisa nova não nasce.
dança, trabalho, legado
no fim, joguei umas palavras pra ele. dança: "o amor pra vida". cabrueira o deixou emocionado. ninguém tinha perguntado isso antes, além de um diretor de espetáculo. "a cabrueira me curou. minha vida foi antes e depois dela." dinheiro: "não é tudo, mas é importante". medo: não conseguir se mover. referência: o pai. legado: a cabrueira, que ele acredita que vai ficar por gerações.
e ele aproveitou pra me cobrar ao vivo a nova marca dos 20 anos da cabrueira, que eu fiquei de fazer. dessa vez ele disse que pode pagar, hehe. fica registrado.
trabalhar com o que ama tem a parte do adulto: mandar orçamento, cobrar, pagar, aprender o que não dá prazer. mas é nessa paixão que o engajamento mora. o que você ama tanto que não consegue se ver fazendo outra coisa?
fui. 💚


