ser de verdade seduz sem saber: microconexões e micromovimentos
numa palestra de 25 minutos, condensei três dias de vivência sobre como criar elos emocionais genuínos entre marcas e pessoas, com dados, constelação familiar e o urso que eu quase não abracei.
a palestra foi logo depois do almoço, então comecei pedindo três minutos pra todo mundo se organizar. coluna reta, pés no chão, olhos fechados. imagina cinco imagens, sente o cheiro de quatro coisas, o sabor de três, o som de duas e o toque de uma. é um exercício que eu uso antes de palestra, reunião ou qualquer encontro importante, porque traz o corpo de volta pro presente. quando todo mundo abriu os olhos, contei que naquela manhã tinha recebido uma cesta de uma cliente. no bilhete, ela dizia que eu era a representação da ipseidade, aquilo que diferencia um ser do outro, o que é próprio e único de alguém. achei bonito demais pra não usar.
o tema era conexões e micromovimentos, e o desafio era colocar em 25 minutos o que eu trabalho em três dias de vivência. é o tema da minha vida desde a primeira marca, em 1998: criar elos emocionais entre marcas e pessoas, sempre com fundamento, nada de achismo.
o urso que eu quase não abracei
abri com uma frase de um compositor de salvador que eu adoro: ser de verdade seduz sem saber. quando você é de verdade, as pessoas percebem e a coisa fica natural. aí perguntei quem ali já tinha deixado de fazer alguma coisa por vergonha. muita mão levantou.
contei que estava em pomerode, a cidade mais alemã do brasil, na inauguração de um parque, e tinha um urso de pelúcia gigante, desses de fantasia. me deu uma vontade enorme de abraçar e, na mesma hora, bateu a vergonha: um marmanjo do meu tamanho no meio das crianças brigando pra chegar perto. parei e pensei: na moral, e a opinião dos outros? fui lá, abracei e tirei foto. muitas vezes essa barreira a gente mesmo coloca, e rompe sozinho.
e lembrei de como as relações se constroem. você conhece alguém e, com o tempo, descobre que essa pessoa também gosta daquilo, também viveu aquilo, e cada coincidência aumenta a conexão. tem quem chame de sincronicidade, cada um dá um nome. o fato é que isso amplia a lealdade e o canal de confiança, e isso é construído.
o dado que importa
eu gosto de dado porque na internet a gente se perde no irrelevante. você faz um conteúdo legal, tem cinquenta curtidas e dez comentários, aí alguém que te conhece do presencial e nem é seu público manda uma crítica no direct, e você nunca mais faz aquele conteúdo. um dado irrelevante te parou.
os dados que eu levei foram outros. a sociedade brasileira de dermatologia apontou um crescimento enorme na busca por procedimentos estéticos. um estudo de 2020 mostrou que 84% das brasileiras usavam filtro pra mudar a própria imagem e 78% já tinham tentado esconder alguma parte do corpo antes de postar. qual é a nossa responsabilidade sobre isso, com a nossa imagem e com quem nos segue? e tem outro: pra 65% dos brasileiros, o principal motivo de estar na rede é manter contato com amigos e família. então por que a nossa conexão com quem nos acompanha não pode ser de amigo, de confiança, em vez de só gerador de conteúdo?
71% dos consumidores confiam na indicação de influenciadores, e os que crescem rápido costumam ser os autênticos, porque quando você veste uma máscara o corpo do outro percebe que tem algo errado, mesmo sem saber o quê. e aí eu mostrei a hierarquia que uso. o popular é quem as pessoas conhecem. o influente é quem as pessoas param pra escutar. a autoridade é quem as pessoas acreditam. e a referência é quem vive o que prega. o exemplo arrasta, e a referência carrega todos os outros níveis junto.
as duas mulheres
pautei a fala em duas personagens muito comuns entre as minhas clientes, que são mulheres em sua maioria. a primeira se veste pros outros, faz o que tá na moda, segue o que o grupo faz e muda o tempo todo. costuma ter dois perfis: num posta o profissional, no outro dança com as amigas e é ela de verdade. guarda o que tem de melhor e não é feliz por inteiro. a segunda sabe o que tem e o que é, divide o que acredita, e quem acredita no mesmo se conecta com ela. não é à toa que comunidade tá em alta, embora sempre tenha estado.
contei do marcelo kimura, hoje meu amigo, que tem um dos cursos mais fantásticos de design da internet. ele passou meses tentando fazer a própria identidade visual e travava. nos stories, só aparecia a mesa impecável. eu disse que nenhum designer de verdade trabalha em casa com a mesa daquele jeito, e que ele não se conectava com designer porque não parecia um. ele respondeu que não ia aparecer de camisa velha e amassada, imagina se alguém encontrasse ele assim. eu brinquei que ninguém ia encontrar ele assim na rua, mas podiam ver na internet e saber que era real. a gente tem responsabilidade sobre aquele aviso de imagem meramente ilustrativa.
a longo prazo, essas duas mulheres vão pra lugares diferentes. uma gera comunidade em volta do que acredita, a outra passa anos sem saber o que representa.
amor, reconhecimento e dinheiro
como worklover®, minha hierarquia de escolha de trabalho sempre foi primeiro o amor, depois o reconhecimento e por último o dinheiro. quando você faz por amor, o reconhecimento vem mais fácil, e o dinheiro muitas vezes nem precisa pedir. é um ciclo natural, porque o dinheiro está a serviço do equilíbrio da troca, e o trabalho está a serviço da vida.
aí trouxe a constelação familiar, que adotei como filosofia porque os princípios são simples de seguir: pertencimento, hierarquia e equilíbrio. a primeira mulher busca reconhecimento e pertencimento lá fora, e muito provavelmente não ocupa o próprio lugar na origem, como filha mais velha, do meio ou caçula, ou trocou de lugar com os pais. enquanto você não se reconhece no seu lugar dentro de casa, não adianta buscar lá fora. a segunda ocupa o lugar dela, não briga, não guerreia. e tem a história das três pedras, que eu deixei pra outra hora: a mesma pedra preciosa tem um valor na feira, outro na joalheria e outro no museu. onde você está levando o seu valor?
o que são microconexões
microconexão é tudo que você é, tem e gosta. como se veste, o que ouve, o que faz, a região onde mora, a escola onde estudou. cada vez que alguém do outro lado se identifica um pouquinho mais, a confiança cresce. eu amo crossfit, e quem gosta de atividade física se conecta. eu sou pai, divorciado, com guarda compartilhada, uma semana com meus filhos e uma semana com a mãe. uma mulher que vive isso, entre dois profissionais do mesmo gabarito, vai escolher quem entende a rotina dela. e isso são só as dores superficiais.
fiz meu primeiro curso de rapport em 1997, pra trabalhar numa loja em salvador. a palavra é francesa e significa criar laço. no presencial, você espelha a pessoa e, depois, assume a condução. é a base da hipnose e de muita negociação entre grandes líderes, e aumenta muito as vendas porque gera confiança. então por que não levar isso pra internet, mostrando quem eu sou como pessoa? citei um estudo recente com criadores de conteúdo entre 25 e 45 anos que mede como cada semelhança mostrada tira uma camada da cebola na conexão com o outro. quanto mais eu mostro quem sou e o que acredito, mais conecto.
e entra a coerência. aqui na bahia a gente diz que o santo não bateu quando a pessoa fala uma coisa e faz outra e a gente nem sabe explicar o incômodo. ser coerente 100% é impossível, mas andar como se fala é essencial, principalmente pra profissional.
pra começar, sugeri separar em três colunas o que é paixão, o que é interesse e o que é curiosidade. curiosidade passa rápido, então sai da lista. paixão e interesse viram microconexões poderosas, porque são mais atemporais.
o que são micromovimentos
micromovimento é a microconexão que você repete até marcar. pregnância depende de repetição, a pessoa precisa ver várias vezes um símbolo, uma cor, uma fala, um jargão pra relacionar com você. e citei a frase de john adams: somos soldados pra que nossos filhos possam ser fazendeiros e nossos netos, poetas. tem a marca guerreira que conquista o terreno, a fazendeira que constrói nele e a poeta que vive a plenitude. hoje as marcas pessoais precisam inspirar, e é mais simples gerar um movimento a partir do que você acredita. se eu gosto de crossfit, meu micromovimento é a atividade física diária, que vira um pilar do meu conteúdo, porque eu não acredito em quem ajuda os outros só no mental e não cuida do corpo.
todo micromovimento meu vira linha editorial. na segunda-feira tem story de motivação dizendo que não precisa fazer muito no primeiro dia, porque é melhor manter um nível a semana toda do que brilhar na segunda e sumir na terça. o que faz diferença ao longo do tempo é a constância. quando você mostra quem é, atrai quem está conectado a isso e perde a vergonha de publicar, porque as pessoas confiam em quem você é. onde você não puder ser você, não fique nem pro café.
duas dicas e um compromisso
a primeira dica: antes de gerar conteúdo profissional, se divirta. você pode ser o expert das galáxias no seu trabalho, mas na plataforma você chega lá embaixo, sem saber. precisa vestir a camisa da humildade, aprender a ferramenta e brincar com ela primeiro. a segunda: uma marca inabalável começa pelo ambiente de apoio. parceiro, pai, mãe e irmão muitas vezes atrapalham com as crenças deles. se dependesse da minha mãe, eu ainda estaria procurando emprego nos classificados, e isso nunca vai combinar comigo.
e fechei com o meu lema: primeiro seja ok, depois seja foda. se você não faz o básico bem feito, não adianta querer mais. seja no mínimo quem você é, não quem os outros gostariam. pedi pra plateia repetir comigo: eu sou a única responsável por onde estou hoje e por quem sou hoje, e me comprometo comigo mesma pela busca do meu sucesso.
o que você deixou de fazer essa semana por vergonha do que iam pensar?
fui. 💚


