o escaleno nasceu de uma conversa entre três designers que se conheceram na internet. eu, o marcelo kimura e o walter mattos. o kimura achou o nome num daqueles brainstorms de naming: um triângulo de três lados diferentes, ângulos diferentes, bahia, paraná e rio de janeiro. a ideia era uma mesa redonda descontraída, sem vender nada, mostrando o que fica por trás da marca pronta no portfólio. nesse primeiro episódio, ao vivo, quase trezentas pessoas, cada um contou como chegou até aqui.
ninguém nasceu designer
o walter abriu. em 2001 quase ninguém falava de design. ele queria ser militar, músico, psicólogo, já tinha feito até curso pré-militar, e a mãe apareceu com uma matéria de jornal sobre design gráfico. a palavra que pegou foi desenho. na primeira semana de faculdade a expectativa não bateu com o que ele encontrou, e mesmo assim foi amor à primeira vista. a paixão por marca veio depois, quando ele levou o que aprendeu em design editorial, o grid, a harmonia, a matemática de que sempre gostou, pros projetos de identidade.
o kimura veio pelo caminho da curiosidade. era o menino escalado pra fazer a capa dos trabalhos da escola, viu um cara desenhando no corel, foi atrás, abriu um fotolog e ficou conhecido na cidade. um dono de agência pequena do interior chamou ele pra ser designer. ele não sabia o que era tipografia. foi fazendo, pegou gosto e foi estudar.
o meu começo foi por falta do que fazer, e eu digo isso sem vergonha nenhuma. passei uma parte da infância na roça, sem amigo por perto, o mais próximo a quatro quilômetros de bicicleta. o que eu tinha era papel de mimeógrafo jogado fora pela escola, e eu desenhava no verso. cheguei na capital, me perdi no terceiro ano, não passei no vestibular, e minha mãe disse que eu não ia ficar seis meses parado. fui vender em loja de shopping e ela pagou um curso de design gráfico no senai, em 1999, 180 horas de pagemaker, corel e photoshop.
o que me fisgou foi ver um cara abrir no corel um documento oficial cheio de detalhes, com mais de dez mil objetos contados na barrinha lá embaixo. dei zoom, dei zoom, e pensei que queria aprender aquilo, pro bem, hehe. no msn eu assinava "corelrealista". depois, no meio da faculdade de sistemas de informação, entrei na layout, uma das agências mais legais de salvador, e ali tive certeza de que só queria fazer marca.
o designer de home office não é vagabundo
os três trabalham em casa com identidade visual, e isso tem um lado que ninguém posta. o vizinho acha que você não trabalha. a família pergunta se você conserta computador ou faz site. o walter contou que, quando estudava design, perguntavam se ele fazia cartaz de festa. e a minha mãe, que passou anos pagando o crédito educativo da minha faculdade, encontrou no salão de beleza uma moça que fazia design de sobrancelha e voltou feliz pra casa dizendo que tinha conhecido uma colega minha. desde então ela responde que o filho dela "só faz marca".
o portfólio mente um pouco
a gente monta o portfólio com o melhor que já fez, e isso cria uma ilusão. parece que todo mundo começou excelente, que tem que nascer com talento. o kimura falou dos trabalhos antigos que hoje ele olha e pensa "nada a ver". o walter escreveu lá atrás um artigo sobre a sensação de "nunca vou chegar nesse nível". o que separa quem está ali falando de quem está assistindo é a vontade de começar. ele comparou com a música: ver um guitarrista monstro tocar pode te fazer desistir ou te dar gana de estudar. hoje um moleque de dez anos aprende tudo de um guitarrista no youtube e aos vinte está destruindo.
e tem uma armadilha no meio desse caminho: copiar quem você admira. no início a gente faz muito parecido com quem gosta. o "roube como um artista", do austin kleon, fala disso. beba da fonte dos melhores, depois misture e coloque do seu jeito, com a sua autenticidade.
ninguém compra design
essa foi a parte mais útil da conversa. o kimura disse que, quando comprou a câmera, não estava comprando uma câmera, estava comprando o canal no youtube que ela ia materializar. com marca é igual. o cliente não vê valor no design, vê valor no que o design faz por ele. uma identidade bem projetada economiza dinheiro, porque o universo visual já está definido e ele para de fazer tudo do zero a cada peça.
eu sempre uso o exemplo da churrascaria. nenhuma faz anúncio com a carne crua sangrando ou com o boi no pasto. ela mostra a picanha suculenta pronta. o cliente quer saber o que vai estar lá no final. e ele não precisa saber se aquilo é design, publicidade ou marketing. ele quer saber qual é o problema dele e se você resolve.
o walter completou com uma regra: parta do princípio de que todo cliente é leigo em design, até os que já contrataram outro designer, porque se soubessem fariam sozinhos. e entenda que por trás do negócio tem uma pessoa, com um propósito, com uma expectativa que vai além do briefing.
conteúdo traz cliente sem você vender
perguntaram como a gente prospecta sendo home office. o walter passou um ano sem publicar e até hoje recebe contato por causa do blog. o curioso é que ele escreve pra designer, e quem chega é o fotógrafo, o pessoal do setor criativo, gente que viu que designers seguem ele. isso vira referência sem ele pedir. o kimura lembrou de uma estratégia que o marketing usa há anos e o design quase não usa: falar das oportunidades que o cliente perde por ter uma marca ruim, não só dos benefícios de ter uma boa.
sobre faculdade, os três têm histórias diferentes. eu me formei em 2009, o walter começou direto pela graduação e o kimura é autodidata. o conselho dele foi bonito: a faculdade é um atalho, faça se puder, mas não é a única porta. e a instituição importa menos do que parece. o walter contou que entrou numa agência que só contratava gente de uma faculdade específica, e só descobriram três meses depois que ele vinha de outra, porque o portfólio falou por ele.
uma dica de cada
o kimura pediu pro designer estudar além do design: marketing, o papel do design nas empresas, o público que atende, e produzir conteúdo. o walter falou de repertório, de ler de tudo, de viver fora da tela, porque quanto mais você enxerga, mais caminhos encontra pra resolver um problema. e a minha foi a de sempre: se o design não é o que te tira da cama todo dia, procure o que tira. se você entrou no design só pra fazer post bonitinho, sem querer gerar resultado pra ninguém, vai ser mais um. agora, se é isso que você ama, escolha o seu nicho, conheça o seu cliente melhor do que ele mesmo e mergulhe.
perguntaram qual técnica criativa eu uso, além de mapa mental e nuvem de palavras. respondi a verdade: andar de moto, treinar e o banheiro. pra mim, a melhor ferramenta do design é o briefing, e o resto acontece na cabeça enquanto eu vivo.
e você, caiu no design ou em qualquer coisa que faz hoje por vocação ou por acaso?
fui. 💚


