no portfólio, a marca aparece linda, aprovada, com mockup. o que ninguém mostra é que aquela muitas vezes foi a quinta ou a sexta apresentação, depois de um monte de reunião e de problema. no terceiro escaleno, com pouca gente ao vivo e por isso mais à vontade, eu, o walter mattos e o marcelo kimura abrimos os perrengues. sem citar nome de cliente, que ninguém aqui quer processo, hehe.
a reunião que não tinha pauta
o walter contou o que mais marcou ele. uma pessoa de uma multinacional de cosméticos indicou ele pra uma colega de outro setor, que pediu uma reunião. passou mais de um mês, ele lembrou ela, foi com o sócio, sentou na mesa, e ela perguntou: "então, o que você trouxe?". ele tinha ido esperando um problema pra resolver. ela esperava um portfólio. ele não levou nada, ela não lembrava por que tinha chamado, e os dois ficaram se olhando. ele saiu de lá muito bolado, e eu entendo. ir preparado pra qualquer reunião é uma lição que dói pouco quando a gente aprende com a história dos outros.
o segundo caso dele foi pior, porque veio depois da alegria. o cliente mandou um áudio empolgado aprovando a marca, ele fechou o pacote, entregou a papelaria, o cara usou por um mês, mostrou pra família, todo mundo adorou. e aí ele voltou dizendo que faltava fluidez. a palavra fluidez nunca tinha aparecido no briefing. o walter disse que, pra mudar, seria um projeto novo, com orçamento novo, e o cliente pensou, desistiu e usa a marca até hoje.
quando são três pra aprovar
o kimura teve duas histórias parecidas. numa, duas sócias responderam cada uma um briefing, e a que ficou encarregada de juntar os dois mandou só o dela. resultado: uma aprovou, a outra não. no fim, a marca virou projeto de uma delas só. ele chegou a se perguntar se tinha causado a separação das duas.
na outra, um casal de sócios e uma terceira pessoa de marketing no meio. cada um gostava de uma parte diferente, discordavam entre si na frente dele. o briefing falava de ousadia, de posicionamento ativo, de uma marca diferente de tudo no segmento. depois vieram referências que não tinham nada a ver com isso, e na terceira rodada pediram algo parecido com a marca antiga, que era o clichê do segmento. o mais triste foi o detalhe que ele contou no fim: o posicionamento da empresa era o poder feminino, e a sócia tinha amado a primeira proposta, dito que aquele símbolo era ela. ninguém ouviu. o kimura devolveu o dinheiro da entrada e indicou outro designer.
o aprendizado dele virou regra: a reunião pode ter quantas pessoas quiserem, mas nada se decide ali, e a aprovação vem de uma pessoa só. e eu sugeri levar isso pro contrato, com um valor pra uma pessoa aprovando, outro pra duas, outro pra três.
o choro que virou recusa
o meu primeiro perrengue foi com um cliente da área de educação física e nutrição, cheio de conteúdo, com o sonho de trabalhar com atletas, mas que vivia esperando mais um diploma pra se autorizar. apresentei a marca ao vivo, compartilhando a tela, e ele chorou. tenho o vídeo até hoje. disse pra ele ficar com a apresentação e me dar o ok em três dias. três dias depois ele ligou dizendo que não se via na marca.
ele tinha mostrado pra três pessoas da família. eu digo isso sempre: a opinião da sua mãe só vale se ela tiver o perfil do seu público. no fim, levamos um ano. eu deixava a marca descansar, apresentava uma nova opção meses depois, e no meio fui fazendo algumas dinâmicas, um pouco de constelação, sem ele saber, pra ele ganhar segurança. chegamos numa solução que ele usa e com a qual se identifica, mais próxima do jeito ousado que ele queria ser e tinha medo de assumir.
o segundo foi uma profissional de sobrancelha e cílios que não abria mão da silhueta. pra mim era cortar o coração, porque eu queria fugir do clichê. a primeira apresentação, ousada, não pegou. em vez de largar o projeto, voltei, usei a silhueta que ela queria, mas com elementos soltos e cor, pra sair do lugar comum. ela amou. às vezes o desafio é fazer o que o cliente pediu sem cair no que todo mundo faz.
o site que quase saiu de graça
o terceiro foi um site pra uma empresa de aromas que chegou até mim por causa de outro site que eu tinha feito. quem conversou comigo foi o pessoal de marketing, e eu nunca perguntei quem ia aprovar. na apresentação, apareceram os dois sócios, um mais conservador e outra mais moderna, que já brigavam entre si pela própria marca. falei na reunião que eles precisavam se resolver antes e paramos o projeto.
eles queriam pagar só se usassem, e aí eu expliquei o que era verdade: todo o briefing, os problemas que mapeamos e as soluções que demos já eram consultoria. se um dia o site saísse com as minhas ideias e eu não tivesse recebido, eu ia me sentir roubado. eles pagaram a primeira metade inteira, mandei os arquivos abertos, e ficou cada um com a sua parte.
o camaleão de proporção áurea
o walter ainda contou de um dono de agência, fã dele, que queria porque queria uma marca em proporção áurea, na época em que ele tinha feito vídeos sobre geometria. o cara não tinha paciência pra briefing. ele precisava da grana, seguiu o processo, entregou uma marca tipográfica bem resolvida. na apresentação, o cliente perguntou cadê o símbolo. ele esperava um camaleão. o briefing apareceu inteiro naquela hora. o walter devolveu cem por cento do dinheiro, a única vez que fez isso, e explicou que aquele cliente precisava de outro perfil de designer, de alguém que desenhasse quinhentos camaleões pra ele escolher.
o valor está no risco
perguntaram se marca pessoal vale menos do que marca de empresa. o walter respondeu de um jeito que eu guardo até hoje: o valor do projeto está ligado ao risco que o cliente corre se der errado. uma empresa gigante que precisa refazer a marca joga fora tudo que já imprimiu. o kimura completou com os fotógrafos: um ensaio custa x, um casamento custa quatro ou cinco vezes mais, porque se o ensaio sai desfocado você marca outro dia, e o casamento não se repete. se der errado na borracharia do bairro, o prejuízo é pequeno. numa empresa grande, não.
filtrar antes de começar
uma designer perguntou no chat se uma abordagem bem projetada ajuda a filtrar cliente. pra mim, é como fachada de loja. se a vitrine mostra o que tem dentro, entra menos gente, mas entra quem compra. aquele amigo do colchão magnético de quatro mil reais que queria cinco números de operadoras diferentes no cartão de visita é o exemplo perfeito. quem se preocupa com o preço da ligação não vai comprar um colchão de quatro mil.
o kimura usa um formulário e uma apresentação personalizada antes do orçamento, com projetos do segmento do cliente. o walter tinha um pré-briefing automático no site, e cada pergunta ali nasceu de um problema que ele já viveu. ele contou da placa numa máquina de misturar tinta que proibia colocar lata com fezes: todo aviso existe porque alguém já fez aquilo. pra ele, a pergunta mais importante de todas é por que você precisa de uma marca nova. resposta rasa, briefing raso, projeto que não rola.
a dica de cada
o kimura pediu pra aprender com o erro dos outros, que é o grande valor de um grupo como o nosso, e pra não se culpar demais, mas também não repetir o mesmo erro a vida toda. o walter disse que nada blinda a gente, mas um bom posicionamento faz os clientes nem pedirem absurdos. e a minha foi desenhar o processo: o que você coleta, quando começa, quando avisa o cliente, como entrega. escreva, siga à risca e, a cada projeto, acrescente o que faltou. uma hora você chega no seu processo ideal, e ele continua mudando.
e um último recado que eu deixei no fim: se você não acorda com prazer pra fazer design, se vive apertando a soneca, talvez isso não seja a sua.
qual perrengue mudou de vez o jeito que você trabalha?
fui. 💚


