não queira pouco, com gustavo nilo
ele nunca teve carteira assinada, abriu uma cafeteria aos 23 que virou choperia e hoje toca um grupo com oito marcas em salvador. no podmarkar, o gustavo falou de recorrência, cultura, esporte e da frase que eu não paro de repetir.
o gustavo nilo nunca assinou carteira e nunca quis. logo depois de se formar abriu o primeiro negócio, uma cafeteria pequena, e deixou o público mostrar o caminho. quinze anos depois, toca um grupo com oito marcas em salvador, entre elas o mana, onde gravamos esse podmarkar especial. eu conheci ele no esporte e sei que ele vive o que prega. ele é campeão baiano de tênis, empreendedor em série e dono de uma frase que pra mim é maravilhosa: não queira pouco.
a cafeteria que virou choperia
minha geração trabalhava em shopping, em loja, em mil lugares antes de qualquer coisa. ele não. nem carteira de trabalho tem. curioso é que não lembra de pensar, quando criança, no que queria ser. a família toda é do direito, e ele, "a ovelha negra", foi fazer administração. estagiou três meses num banco, o pai insistia pra ele abrir alguma coisa num ponto da família, e com 23 pra 24 anos ele abriu o preto. "foi literalmente uma escola." são 16 anos de preto, a marca que ele ainda olha com mais paixão.
o nome vem do café preto, e a marca tem uma história ótima: o designer pegou uma xícara de café, levantou e mostrou a borra que ficou no pires. "gustavo, sua marca tá pronta." era uma cafeteria inspirada num café do comércio onde ele tomava cafezinho depois do ensaio da banda. só que o público foi pedindo outras coisas. ele tirou o expositor de torta pra colocar uma chopeira, tirou a cafeteira pra pôr o freezer de caneca, e o preto virou choperia, hoje com fama de ser uma das que mais vendem chope no norte e nordeste, prestes a abrir a segunda unidade. no começo ele atendia mesa, fritava, tirava chope. foi da operação pro executivo e do executivo pro estratégico. "a gente cobra o escanteio e vai cabecear."
problema é dádiva
perguntei se ele imaginava que duraria quinze anos. não pensava nisso, mas foi moldado pelo esporte a pensar longe, e se considera muito constante. "quando eu falecer daqui a cem anos, todas as minhas marcas vão estar presentes, se deus quiser." e completou que, no dia da gravação, tinha passado por três problemas muito graves que no começo teriam desestabilizado ele. hoje enxerga problema como algo que faz crescer. "se você não sabe lidar com pessoas e com problemas, troque de área, faça um concurso."
eu perguntei como foi abrir mão da ideia inicial, porque muito empreendedor fica rígido com o nome, o formato, o plano. ele disse que a escuta do cliente é ouro. a essência e a preocupação com a experiência continuaram as mesmas. o preto foi eleito bar pra ir a dois e, dois anos depois, bar pra paquerar. "deu um 180 absurdo, e tá tudo bem." ele mesmo mudou: era avesso ao marketing e hoje acha que o marketing é, no mínimo, metade de qualquer negócio. "pessoas inteligentes mudam de opinião, não mudam de valores."
eu contei de um empresário chinês que entrou na academia pela primeira vez aos 50 e tirou brevê de piloto aos 79. o gustavo lembrou de uma frase que ouviu do alfredo soares: tenha mais paixão pelo seu futuro do que orgulho do seu passado. o passado já forjou quem você é, mas sucesso, dinheiro e felicidade são passageiros.
recorrência acima de tudo
o mana foi a última marca que entrou no grupo, e ele foi honesto: entrou pelo negócio, porque ele via um oceano azul no café da manhã servido o dia inteiro. claro que juntar a pessoa física com a jurídica flui melhor, e o mana é a marca que mais tem a ver com a vida dele, com saúde, esporte e comunidade. eu contei que, toda vez que corro desse lado da cidade, é impossível não parar ali pra tomar um açaí e encontrar gente conhecida.
ele disse que a comunidade é o coração da estratégia. abriram uma unidade num complexo de eventos porque viram demanda, e vão abrir outra numa praça onde tem clube de corrida, mesmo podendo pagar menos em outro lugar. perguntei qual era o segredo do mana que talvez fosse a dor de cabeça do contador. a resposta: o indicador que importa ali é a recorrência, não o tíquete médio. "se o cara vem tomar um café da manhã pra gastar 60 reais e acaba gastando 120, ele não volta mais." segundo ele, 30% dos clientes voltam na semana seguinte e 60% voltam pelo menos uma vez por mês. o concorrente do mana não é o açaí do lado, é você cozinhar em casa. já num restaurante do grupo feito pra ocasiões especiais, a lógica é o contrário: ele quer que o cliente passe por entrada, prato, sobremesa e café.
a cultura é o gerente invisível
eu disse que quando alguém sabe quem é, vive o que prega e comunica isso, a cultura vira extensão natural. ele definiu cultura como o gerente invisível, o que as pessoas fazem quando você não tá presente. ela pode ser intencional ou não, mas sempre existe. e não se ensina falando, se ensina fazendo. mesmo com quinze operações, ele vai passar uns quatro meses abrindo e fechando a nova unidade do preto pra que a primeira turma de funcionários aprenda a cultura com ele e passe adiante. "o estabelecimento é a cara do dono." no mana, o thiago tá lá todo dia.
dos três pilares, pessoas, processos e cultura, o mais difícil pra ele é o humano. processo, pra ele, é clareza: não dá pra querer que o atendente chame o cliente pelo nome sem ensinar isso, e até a playlist do mana segue um processo. ele considera as empresas dele empresas de educação. tem conversas individuais com funcionários sobre problemas pessoais e já viu casamento melhorar e finança arrumar depois de algumas conversas. e nenhum estabelecimento anda sozinho pra sempre, como criança: você se afasta, mas vira e mexe tem que voltar.
o esporte que forma empresário
perguntei se ele já teve dúvida. "com toda humildade do mundo, nunca." o tênis ensinou estratégia, o jiu-jitsu ensinou resiliência. como não tinha um empresário na família pra se espelhar, ele acredita que a escolha de empreender veio do esporte. imagina uma criança de doze anos tendo que virar um jogo de tênis sozinha, sem pai nem mãe pra ajudar. no jiu-jitsu você lida o tempo todo com pequenas frustrações, o braço que escapa, o estrangulamento que não entra. ele chama isso de antifragilidade: voltar maior depois do problema. e diz que empresário de verdade, que construiu do zero, é meio viciado em problema, e que o esporte dá endorfina e performance.
não queira pouco
pedi que ele explicasse a frase. "a gente já teve a sorte de estar aqui no mundo." se o objetivo é ser rico, trabalhe pra isso. se é fazer diferença, também. não queira pouco do corpo, da família, da segurança de quem você ama. ele sabe que trauma de infância pode paralisar, mas acha que isso explica até uns 20 e poucos anos, e depois a gente colhe o que planta. ele quis saúde de ferro, uma família grande, ficar com a esposa até o fim da vida, viajar dez vezes por ano e ter dinheiro na conta. "tudo que você quer, é só correr atrás."
lembrei de outra frase que ele me disse num café e que eu usei numa palestra: todo mundo é o melhor em ser ele mesmo. ele completou que na rede social as pessoas querem ser o próprio guru, quando deviam filtrar o que serve e se conhecer. "se você quiser abrir trinta empresas como eu, vai competir comigo, e esse não é o seu forte." e soltou uma coisa que me surpreendeu: ele não faz o que gosta, faz o que é bom. se fizesse o que gosta, estaria dando aula de tênis ou esquiando. até uns 30 anos dá pra testar muita coisa, mas dos 31 aos 45 é a sua arrancada. com o resultado, você acaba se apaixonando pelo processo. ele repete pra filha que ela precisa ser autêntica, porque ninguém compete com você naquilo que você é.
família, tênis e bate-bola
perguntei da família, porque ele é muito ligado a ela. ele disse que a família blinda você de você mesmo: o empresário com esposa e filha em casa não usa o bar pra paquerar. os pais dele nunca brigaram na frente dele, e ele sempre sonhou com uma família numerosa. "eu sou o que sou por causa deles."
ele é tenista, não crossfiteiro. jogou na infância, parou vinte anos e voltou na pandemia. diz que se você quer conhecer alguém profissionalmente e a pessoa joga tênis, vá ver o jogo dela: dá pra saber se vai ser um bom sócio, se aguenta pressão, se decide bem.
no bate-bola, o hábito que sustenta ele é a disciplina. o livro que mudou a cabeça dele foi "antifrágil", do nassim taleb. a marca dele numa palavra: comunidade. a maior mentira sobre sucesso é que dá pra ficar com ele pra sempre. dinheiro e paixão se dão bem. na lápide, "um homem honrado". talento sem disciplina é engolido por um disciplinado, e quando junta os dois sai um messi ou um djokovic. e o que muda primeiro é a mentalidade.
o começo sem equilíbrio
ele contou que no começo do preto não existia equilíbrio. comia fast food todo dia, engordou, não fazia exercício, abriu mão da saúde e da família em prol do negócio, sabendo que era por um período. todo empreendedor de sucesso passa primeiro pela operação, sem exceção. se você não tem paciência, faça concurso ou jogue na mega-sena, porque vai parar no primeiro problema.
o que não pode deixar de provar no mana, pra ele, é o smoothie: açaí orgânico sem açúcar, pasta de amendoim, proteína e nibs de cacau. foi o primeiro contato dele com a marca. e quando perguntei se é mais fácil tocar um negócio que ele consome, ele soltou outra das frases dele: não dá pra separar cpf de cnpj. ser um cara do esporte deixa mais fácil falar do mana, mas ele não abriria uma bet e abriria uma esfiharia sem problema, porque a cultura e os valores seriam os mesmos.
as viagens são o respiro dele, mesmo trabalhando de lá. ele tem paixão por neve e se sente mais poderoso cercado por ela, e várias marcas do grupo nasceram de conversas em viagem com o sócio. o dia perfeito é o que ele já vive: de manhã só trabalha pelo whatsapp, leva a filha na escola, reza, se sintoniza em pensamento positivo e faz esporte em jejum. de tarde, reuniões. de noite, a esposa. dorme por volta das nove e acorda às cinco. "a disciplina é a maior liberdade do ser humano."
e tem um lado que pouca gente conhece: ele é fã número um de bob marley, teve banda desde os dez anos, tocou bateria em várias bandas de reggae e abriu show de banda famosa de salvador. era o capitão da banda, cuidava do dinheiro e dos shows, e foi ali que aprendeu a lidar com personalidades diferentes. hoje música é o que ele usa pra desligar, tanto que não ouviu nenhuma antes do podcast pra não relaxar demais.
a mensagem final não podia ser outra: não queira pouco. às vezes o que você quer tá longe, mas mudar de ambiente e subir mais um degrau é possível, na saúde, no esporte, na família e na profissão.
e você, tem querido pouco de quê?
fui. 💚


