como um olhar vira assinatura, com kiolo
meu veterano de design virou um dos fotógrafos de arte mais reconhecidos da bahia. no papo worklover®, o kiolo contou de onde vem o nome, por que só faz três cópias de cada obra e como a corrida mudou o jeito dele de trabalhar.
o kiolo eu conheço há muitos anos. fui calouro dele na unijorge, trabalhamos juntos numa agência e vi de perto a virada dele pra uma área que ninguém imaginava. ele me recebeu no papo worklover dizendo que o design gráfico é a espinha dorsal dele, o que dá estética, referência e esse senso do que é belo e funcional. por muito tempo achou que ia ser um ex-designer, que tinha virado fotógrafo e artista. "mas a grande verdade é que a gente não deixa de ser designer." hoje ele também é sócio de uma marca de suplemento e de uma corrida, e diz que todas essas portas se abriram pelo mesmo critério estético.
de luquinhas a kiolo
comecei pelo nome, porque pra mim é a primeira coisa de uma marca. e kiolo é muito melhor do que lucas ferraz, por mais que lucas ferraz seja um bom nome. a história é simples. ele tem uma madrinha "roubada", que é madrinha da irmã dele e que ele adotou, lá de são gonçalo dos campos, que dá apelido a todo mundo. lucas virou luquinhas, quinho, quinholo. ele tinha um amigo de infância também chamado lucas, que virou kisa, e os dois andavam tão juntos que viraram "quinholo e kisa". um dia ele passou a escrever com k. quando o instagram chegou, em 2011, ele não quis um arroba formal e ficou com @kiolo, porque a cidade já conhecia ele assim. jamais imaginou que aquilo viraria o kiolo de hoje. "não foi estratégia, foi muito orgânico." quando ele vendeu a parte dele na agência pro vico, que foi pra são paulo, o nome já tava consolidado.
o símbolo dele é um k estilizado que lembra um tripé, e em são paulo tem gente que jura que é uma folha de maconha, hehe. a ironia é que ele não é fotógrafo de tripé. nas expedições com fotógrafos de natureza da national geographic, enquanto os caras passam uma hora montando o tripé e o filtro pra esperar o sol cruzar a nuvem, ele já encheu um cartão de memória. "eu sou o fotógrafo do detalhe, do sensorial, da composição." e eu revelei uma piada interna entre os amigos: o kiolo é melhor churrasqueiro do que fotógrafo. toca cavaquinho também. é artista em tudo.
a primeira viagem
lembrei da viagem a paris de onde ele voltou com fotos tiradas sem pensar em vender nada, e de como alguém viu, achou lindo e pediu um catálogo. ele contou que aquela viagem era muito mais do que parecia. perdeu o pai aos 14 anos, virou o homem da casa cedo, passou por dificuldade financeira e tinha vontade de voar sem saber como. tinha ido à disney pequeno, com o pai vivo, e nunca mais tinha viajado. aquela era a primeira viagem internacional dele como adulto, "meu corpo no mundo", como nos novos baianos. fotografava como turista, mas turista designer: textura de porta, maçaneta, tijolinho de fachada, o letreiro de uma oficina de neon.
ele nunca quis fazer ensaio, casamento, evento. o que ele trouxe do design foi o look and feel, aquela simulação que a gente faz pra mostrar ao cliente como a marca vai se comportar no cardápio, no uniforme, na fachada. quando começou a ver as fotos como quadros, passou a pegar ambientes em sites de arquitetura gringos e manipular tudo no photoshop, trocar a cor do sofá, tirar o arbusto, pôr um verde, pra mostrar a obra aplicada. isso em 2013, quando não existia banco de imagem pra tudo nem inteligência artificial. eu lembrei das madrugadas na agência e de como a gente dois era apaixonado por símbolo forte, e das apresentações dele, que ganhavam o cliente pelo verniz.
e tem um detalhe bonito: ele passou na primeira fase de arquitetura, mas já tava matriculado em design e apaixonado. se achou um arquiteto frustrado por anos. hoje ele chega no projeto arquitetônico pronto, na parte gostosa, sem o "bo" da obra, e se realiza como arquiteto também.
o design que ninguém entende
todo designer precisa catequizar o cliente. ele começou em 2002 e diz que em 2026 as pessoas ainda não sabem o que é design. a mãe dele contou uma vez que encontrou uma colega dele no salão, e ofereceu pra fazer a sobrancelha. "minha mãe, você tá pagando minha faculdade pra eu fazer sobrancelha?" hehe. e quando as pessoas não entendem, não pagam. ele acha que no nordeste muita coisa só é valorizada de fora pra dentro, e citou amigos de ilhéus que estudaram chocolate na alemanha, voltaram pra fazenda da família e lançaram o produto primeiro na europa, pra depois são paulo e o resto do brasil validarem.
na frustração financeira com o design, ele chegou a pensar em ser médico, engenheiro, corretor de imóveis. nunca imaginou que ia se realizar financeiramente justamente numa coisa considerada ainda mais acessória. e tem outra diferença. no design a gente carrega o piano da longevidade: entrega a marca em 30 dias e passa dois anos fazendo cartão, papelaria, site, até o valor diluir. a fotografia de arte tem começo, meio e fim: simulação, aprovação, pagamento, produção, entrega, instalação. às vezes a obra fica guardada no atelier esperando o apartamento do cliente ficar pronto, mas já tá paga. a gente até tinha uma gíria entre amigos pra tudo que era muito artístico e com personalidade: "isso é kiolagem".
o que uma imagem vende
o billy, do bahiacast, perguntou de zero a cem quanto uma imagem vende uma empresa. o kiolo lembrou que uma imagem vale mais que mil palavras, mas pra vender uma empresa ela precisa estar amarrada à mensagem. saúde e bem-estar pedem uma paisagem contemplativa, um fundo de investimento talvez peça uma imagem urbana e inquieta. e o artista precisa entender o branding da empresa.
eu completei com uma dor que todo designer conhece: o cliente acha que o que ele gosta é a solução. ninguém pede ao médico três opções de remédio, mas pede três opções de marca, como se a escolha da fonte, da cor e da composição não tivesse base científica. o kiolo disse que vive isso com obra de arte também, com o cliente querendo o quadro combinando com o sofá, sem olhar a mensagem. um barco ancorado é porto seguro, é chegar em casa e se sentir protegido. a água encostando na pedra é encontro de massas, é pertencer. eu contei que tenho em casa a foto de um amigo, o afonso, de um pescador empurrando o barco pro mar no rio vermelho. escolhi porque, naquela época, eu precisava de um empurrão.
três cópias, nem uma a mais
desde o começo o kiolo tratou a fotografia como arte, não como produto industrial. cada foto tem tiragem limitada, assinada e numerada. no começo eram sete cópias no formato pequeno, cinco no médio, três no grande. depois de uma exposição em são paulo, em 2018, ele percebeu que aquilo fragilizava a comunicação e passou a fazer só três cópias de cada obra, em qualquer tamanho, de 40 por 60 até 1,50 por 2,25. e tudo em padrão de museu: papel de algodão francês, montagem em alumínio, vidro de museu alemão, moldura de madeira natural, vedação contra umidade. pro leigo, dois quadros são dois quadros. com o tempo, o de varejo desbota e mofa, e o dele continua ali. ele comparou com as colaborações de grandes marcas: uma camisa comum você divide com um milhão de pessoas, uma edição especial com mais cinco. a arte faz isso há mais de um século.
eu disse que esse critério não nasceu do nada. era o critério dele pro design, pra roupa, pros lugares que frequentava. muita gente quer vender alto padrão sem consumir, sem se identificar, e a câmera do celular entrega. ele contou que manda uns 40 orçamentos por mês e não fecha 40, e aprendeu a deixar o não seguir. às vezes o cliente fecha com um aluno dele, e tá tudo bem.
designer, fotógrafo ou macroartista
o clique veio quando ele percebeu a aceitação e que tava num oceano azul, sem se afastar dos próprios valores. um fotógrafo renomado da bahia vivia alfinetando ele, até que numa festa de verão em praia do forte soltou: "mas você não é fotógrafo, você é designer". o kiolo respondeu: "graças a deus, porque assim eu me diferencio de você". ele se vê como um macroartista que escolhe a forma de mostrar o jeito dele de ver o mundo. já foi o computador, já foi o cavaquinho numa banda, hoje é a fotografia, amanhã pode ser poesia ou pincel. numa viagem ele faz cinco mil fotos, e desse acervo saem projetos pra clientes, livro, patrocínio, marca.
sem filtro, ele disse que o trabalho dele é visceral, e que o pilar é a geometria, que tá até nas paisagens mais orgânicas. tem uma regra na fotografia de nunca pôr o horizonte no meio, e ele sempre põe. chama de linha de cintura: do cinto pra baixo é calça, pra cima é camisa, uma divisão de massas.
ele foi aos lençóis maranhenses em 2015, antes de virar parque nacional, de quadriciclo, com a mochila da câmera na frente e a de roupa atrás, dormindo em casa de pescador. voltou em 2025 com a esposa e se perguntou como fotografar o lugar mais fotografado do brasil sem cair no clichê. a diferença é visível: em 2015 a foto era contemplativa, de janela, em 2025 é sensorial, dá vontade de pôr a mão na tela. e ele revisita os acervos anos depois, porque a empolgação da volta engana. "a temperatura da empolgação da foto é inversamente proporcional ao tempo." eu lembrei de um amigo que diz que a marca a gente entrega no tempo que tem, porque se tivesse mais tempo continuaria mexendo.
da coca no café da manhã à bike às três da manhã
eu conheci o kiolo do enroladinho com coca-cola no café da manhã e das madrugadas na agência com chocolate, salgadinho e mais coca. hoje ele é apaixonado por esporte, e eu sempre digo que quem quer mudar de vida pode começar pela atividade física.
ele explicou que fotografia é uma profissão muito corporal: deitar no chão, ficar na ponta do pé, se encostar no muro. quando a carreira cresceu e ele teve acesso a coisas que o menino represado por limitação financeira nunca teve, engordou, e sentiu o peso no trabalho. olhava no espelho e não se reconhecia. a família toda tem essa tendência. passou por quase todos os nutricionistas de salvador. a primeira virada foi em 19 de novembro de 2019, com um endocrinologista, e aí veio a pandemia. foi trágica pra todo mundo, mas profissionalmente foi boa: as pessoas presas em casa queriam ressignificar o quartinho da bagunça, o home office, o canto da ioga, e a fotografia dele abria janelas. vendeu muito, entrou em hiperfoco, chegou a começar a trabalhar na segunda e não ter dormido até quarta, e engordou de novo. depois veio a filha, a maitê, em 2022, outra fase de ansiedade.
a virada definitiva foi em junho de 2023, com o vitor bahia, um nutricionista que já foi obeso e "alugou um triplex na cabeça dele", porque entendeu a rotina dele de verdade. em novembro, o cunhado, urologista, fazia uma corrida pequena pro novembro azul. o kiolo viu ali um potencial de posicionamento muito maior e propôs um projeto. nasceu a blue run salvador. em 2024 foram mil corredores, em 2025 foram 2.500, e em 2026 a meta é 4 mil, com meia maratona. ele entrou numa assessoria de corrida e depois no ciclismo, que vem da infância de bicicleta em são gonçalo e de um sonho da lua de mel, em 2016, quando cruzou com uma etapa do tour de france nas montanhas. no dia da gravação ele tinha acordado às 3h20, pedalado 32 quilômetros e corrido cinco. triatlo ainda tá longe, diz ele.
o esporte ensinou paciência. numa prova de dez quilômetros não adianta correr mais rápido pra acabar logo, o corpo quebra. ele leva isso pra casa e pro trabalho. eu lembrei que, na psicologia (voltei pra faculdade, aliás), paciência é coisa de adulto.
o seu jeito ou o jeito do cliente
eu vejo dois tipos de profissional na rede: o que mostra o que faz do jeito dele e atrai quem quer exatamente aquilo, e o que atrai o cliente pra fazer do jeito do cliente. o kiolo conseguiu o primeiro. ele disse que no design a gente criava do nosso jeito pra agradar o outro, e que na fotografia fez pra agradar a si mesmo, mas testando se o mercado entende. queria ir pro alasca e não sabia se o olhar dele funcionaria numa paisagem toda branca. foi pra patagônia, que tem montanha, lago e botânica, se realizou, vendeu muito e perdeu a vontade do alasca. e às vezes a série mais vendida é a que ele faz no quintal de casa, porque quanto mais verdadeira, mais carrega o dna dele. se só pudesse fotografar um lugar, ficaria na bahia: água, religiosidade, música, arquitetura, dança, artesanato.
pai de menina
perguntei o que muda depois de ser pai. ele nunca tinha pensado na paternidade antes de casar. a renata tinha esse sonho e ele vestiu. tinha medo, porque perder o pai cedo pesou: o vestibular, a carteira de motorista, o primeiro emprego, tudo sem ele. a mãe foi irretocável e tios e pais de amigos foram referência, mas o medo ficou. foi a renata quem destravou: pensa em como seria bom se seu pai estivesse aqui, e se permite viver isso pro seu filho. veio a maitê, e ele se sente muito pai de menina, conectado à própria sensibilidade de artista. lembrou do vídeo do gregório duvivier falando que ser pai é aprender a gravitar em torno de alguém. e eu contei que tenho na parede um quadro dele, da primeira feira em que ele expôs.
a cópia não dura
pra quem tem dúvida se dá pra transformar paixão em negócio, ele disse que tudo que é feito com verdade tende a dar certo, e que todo storytelling inventado pra vender tem vida curta. ele já sofreu muito com cópia do trabalho dele. hoje olha com pena, porque aquilo não é do processo, nem da referência, nem do dia a dia de quem copiou. eu contei que em 2017, quando comecei a gerar conteúdo, alguém me perguntou qual fonte eu usava. respondi: eu falo de autenticidade, posso te ajudar a encontrar a sua fonte, mas a minha eu não preciso dizer. quem entende seu trabalho não te copia, pergunta como achar o próprio olhar.
onde há paixão, não há imitação. qual é o detalhe que só você enxerga?
fui. 💚


