de nerd a speaker esportiva, com mariana dias
a jornalista e professora de oratória mari dias contou no papo worklover® como a voz que rendia bullying virou ferramenta de trabalho, como trocou a engenharia pela comunicação e por que o conexão esportiva dá voz a quem nunca achou a própria história importante.
eu sempre pergunto o que a pessoa faz, porque o que ela faz fala muito sobre ela. e desconfio de quem, numa festa, não quer falar de trabalho de jeito nenhum: provavelmente o trabalho é muito ruim. no terceiro papo worklover recebi a mari dias, jornalista, professora de oratória e criadora do conexão esportiva, e de longe já dava pra ver o quanto ela ama o que faz. onde há paixão, não há imitação. quem ama consome tanto aquilo que, quando alguém acha que chegou perto, ela já tá léguas adiante.
introvertida, não tímida
perguntei quem é a mari fora das câmeras. ela se descreveu como curiosa, apaixonada pela família, por histórias de vida e por incentivar gente. isso vem de cedo. na escola ela era a aluna focada, sem pressão de ninguém, e ficava mais feliz quando os colegas de recuperação passavam depois de estudar com ela do que com a própria aprovação. "quando você ensina, você aprende duas vezes", ela aprendeu ali.
ela é comunicativa e introvertida, e explicou a diferença que eu também gosto de apontar. o tímido sente falta de confiança. o introvertido pode se comunicar muito bem, mas recarrega no silêncio, num livro, numa música. a bateria social dela tem prazo, e os amigos já nem cobram resposta no whatsapp. mas quando ela tá presente, tá presente de verdade, celular guardado. eu contei de um dia em que passei sem tocar no celular com meu filho e, no fim, ele disse que eu era um bom pai. a gente às vezes tá do lado e não tá ali.
oratória é esporte
ela veio das exatas. escola técnica, engenharia de produção, algoritmo, feira de ciências, patente. a diversão de criança era resolver conta com o avô. e diz que oratória não é dom, é treino: "oratória é esporte". ela treina todo dia, mesmo formada em jornalismo e com anos de prática. o conselho dela é simples: não se preocupa em usar palavra difícil, usa a sua verdade. duas pessoas podem falar do mesmo assunto e o que chama atenção é a energia de cada uma. quem tem bagagem transborda e não tem medo de concorrência.
nas redes ela posta só fragmentos verdadeiros da rotina. se cobram musculação todo dia, é porque ela vai duas vezes por semana. se o ano é do wellness e aquilo não faz parte da sua vida, você não sustenta, e as pessoas percebem o maquiado. "não é o melhor tênis que vai fazer você o melhor corredor." começa de onde você tá.
eu aproveitei pra separar autenticidade de espontaneidade, porque muita gente confunde ser autêntico com xingar e falar na cara sem empatia. eu uso a imagem da sala: marca pessoal é o que falam de você quando você não está na sala, branding é o que você faz pra falarem bem, e autenticidade é quem você é independente de quem esteja na sala. você muda o jeito de falar na praia ou num jantar formal, mas a essência fica. tem um seguidor que eu encontro pra um café quando ele vem a salvador, e a primeira coisa que perguntei foi se eu era o mesmo do stories. ouvir que sim é o melhor elogio.
a voz que virou marca
a mari tem uma voz grave, forte, que na adolescência era ainda mais grave e rendia bullying até na hora da chamada. cantando na igreja e com o avô, desenvolveu uma fenda na prega vocal, descoberta quando fazia canto na ufba. na primeira consulta, aos 14 ou 15 anos, perguntou à fonoaudióloga se ela conseguia afinar a voz. a resposta: a gente melhora a rouquidão, mas o seu timbre é esse, se orgulhe dele, ainda vai ser seu diferencial. hoje ela entra num carro de aplicativo e o motorista reconhece pela voz, de comercial, de reportagem, de televisão.
eu contei a história do vaso amarelo. você tem uma sala linda e um vaso amarelo horroroso no meio, e toda vez reclama dele. enquanto você não assume que o vaso é seu, não consegue pintar, mudar de lugar ou vender. é diferente dizer "odeio meu nariz" e dizer "esse nariz é da minha família, não curto, e talvez um dia eu mude". a energia da mudança é outra. quem faz bariátrica sem cuidar da cabeça continua com pensamento de antes e transfere a briga pra outra parte do corpo.
o dia em que ela caiu de paraquedas na tv
a virada dela foi entrar numa tv em salvador sem ser da área. aprendeu na prática, ficava até duas, três da manhã, e chegou a tocar o barco quando a diretora foi pra são paulo: produção, apresentação, captação de cliente. mas trabalhava muito e ganhava pouco, e com 21 anos queria empreender sem saber como. aí um amigo repórter, passando mal, pediu pra ela cobrir um torneio de tênis no lugar dele. lá ela viu uma equipe de curitiba transmitindo o evento, se apresentou, conheceu o projeto e perguntou por que não abriam uma unidade em salvador. eles precisavam de alguém daqui que entendesse do negócio. "eu posso assumir isso." em outubro foi a conversa, em dezembro a web tv tava no ar. o que deu coragem foi dominar o assunto, a primeira chave do método dela. depois foi pro jornalismo e disse à professora que vinha da engenharia, mas que a comunicação é a maior das engenharias, porque constrói e destrói.
eu lembrei que comecei a empreender com 11 anos vendendo bolinha de jenipapo e carregando compra no carrinho de mão na feira, lá no interior. e que, já em salvador, aos 14, uma professora me pagava pra desenhar os painéis das datas comemorativas da escola. ali ficou gravado em mim que dá pra receber por fazer o que se ama. sem isso, talvez eu tivesse sido um clt frustrado a vida toda.
a nerd excluída
a mari era a cdf, e era excluída por isso. escreviam o nome dela na parede, rasgavam o trabalho, as meninas mandavam bolada no baleado com raiva. a diretora chegou a dizer que o problema era dela. ela ia magrinha, usava duas, três calças pra criar volume. e mesmo assim separava as coisas: muitos dos que criticavam iam pra recuperação e os pais pagavam a ela pra ensinar. o primeiro celular foi presente da mãe de uma aluna que passou de ano, aos 12. ela lia biografia do einstein e se via ali: estudava a série de cima, preferia brincadeira solitária, se sentia uma alma velha no meio de adolescentes.
eu também levei a minha cota. braga virava brega e praga, e meu pai tinha um caminhão tão barulhento que eu pedia pra ele parar um quarteirão antes da escola. eu reagia brigando: notas ótimas, disciplina "não satisfaz". e chorei com o primeiro oito da vida, na sétima série. a mari, que se cobrava por um 9,8, disse que a cobrança sempre foi dela, porque a mãe só incentivava. e lembrou que palavra é semente, principalmente pra criança. hoje ela ainda se cobra demais no trabalho e tá aprendendo a comemorar as pequenas vitórias sem se comparar com ninguém. não dá pra se medir com um ultramaratonista que correu 286 quilômetros.
as quatro chaves da comunicação
ela organiza o método em quatro chaves. primeiro, domine o assunto. segundo, transforme o difícil em fácil. ela teve colegas autistas e encontrava paciência pra ensinar do jeito que cada um entendia. tem até um exercício que chama de plateia infantil: sem desmerecer ninguém, enxergar o público como crianças, que pedem criatividade, atenção e clareza. terceiro, gere valor, compartilhe o que mudou a sua vida. "o ouvido mais próximo da minha boca é o meu." quarto, conexão, que ela só entendeu depois da transição de carreira, quando percebeu o poder da voz.
um ouvinte comentou que quem vende preço não vende qualidade, e eu lembrei dos três pilares: reconhecimento, prazer e dinheiro. quando o dinheiro vai na frente, o empenho cai e o reconhecimento some. a mari completou com a crítica às relações rasas da rede, aquele networking do "o que você tem pra me oferecer".
perguntei do livro de cabeceira. a bíblia, desde a infância e por curiosidade própria, com provérbios como manual de conduta. e os clássicos russos, tolstói e dostoiévski. "o pequeno príncipe" a fez chorar (eu já li umas sete vezes). eu contei que tenho um chat que sorteia um trecho da bíblia pelo número que me vem na cabeça e me traz a interpretação, do mesmo jeito que às vezes puxo uma carta de tarô. a ferramenta trabalha pra mim, não o contrário.
hiperfoco, medo e coragem
eu tenho diagnóstico de tdah e hoje o que me ajuda é meditação. a mari é agitada, por mais que digam no instagram que ela é zen. se eu fosse descrever a marca dela, diria determinada, energética e comunicadora. ela tem "coragem" tatuado. tem medo de altura e foi saltar de paraquedas sozinha, sem contar direito pra mãe, pra ninguém limitar. mergulhou de cilindro no porto da barra sem saber nadar e agora tá aprendendo a nadar no mar. o hiperfoco de criança, que fazia ela esquecer de comer, já foi peso. hoje é ferramenta.
perguntei o que ela ainda faz que muita gente não vê. aos 21, quando montou a produtora, os sócios disseram que ela não podia continuar morando longe do estúdio, e ela foi pra barra com a condição de ajustarem o salário. sempre foi a provedora da casa, levou os pais junto, ia à reunião de escola do irmão mais novo, que hoje mora na frança. paz, pra ela, é inegociável. quem tem paz na clt, beleza. ela ama desafio.
é mídia ou treino?
o esporte só entrou aos 24. transmitindo torneio, ela acompanhava a rotina de atleta adolescente, depois escreveu o livro dos 100 anos do clube baiano de tênis e virou coordenadora de comunicação de lá. o pai recebeu diagnóstico de diabetes, ela se viu descontando a ansiedade no chocolate e decidiu mudar. começou nas artes marciais, machucou o joelho, e o irmão chamou ela pra calistenia num grupo gratuito ao ar livre, no campo grande. a mari fechada começou a se conectar com gente que vibrava igual. a corrida veio em 2016, num desafio de cinco quilômetros que ela nunca tinha corrido, e desde dezembro ela corre mais vezes por semana, agora com a primeira planilha.
"disciplina é liberdade", ela diz. não é prisão, é você virar administrador da própria vida. eu contei que, em doze anos de home office, o que funcionou foi uma rotina modular: cada manhã tem um tema, e se eu acordo pra gravar, gravo, se não, escrevo ou pesquiso. tem direção sem engessar. e eu tenho uma regra: só posto uma atividade nova depois de uma semana fazendo, porque começar todo mundo começa, o difícil é manter.
e ela soltou um bordão que serve pra vida: "é mídia ou treino?". tem gente que posta treino todo dia e tá cada vez mais longe do resultado, que pausa o strava no meio da corrida. no dia da prova a verdade aparece. pra mim, atividade física é o jeito mais simples de mudar de vida, porque mexe com autoestima, estudo, corpo e relações. desde que me entendo por gente vejo o bell marques correndo na orla da barra, e isso combina com ele. e ser modinha não é problema: correr não é cigarro na boca. critica menos e faz a sua parte. o contrário de viver é sobreviver, e muita gente tá na plateia assistindo a vida dos outros.
o conexão esportiva
ela criou o conexão esportiva há cinco anos, deixou parado com mil e poucos seguidores, e reativou em dezembro depois de sentir em oração que era hora. em poucos meses passou de 17 mil seguidores e 3,5 milhões de visualizações, contando história de gente anônima, que às vezes nem tem patrocínio nem pai pra ajudar. é ela e a mãe: a mãe ao lado do tripé, ela grava e edita. nada é combinado. ela conhece a pessoa ali e cria uma frase de abertura, porque, segundo ela, se você não consegue resumir sua história numa frase, ainda precisa fazer o exercício de se conhecer.
o primeiro entrevistado foi o morde chapa, figura conhecida em salvador. a mãe dela apontou na rua um senhor que via correndo sempre. ele disse que tinha que ser rápido porque ainda faltava completar os 42 quilômetros do dia. "tenho 63 anos e corro 42 quilômetros todos os dias" virou a abertura. vieram a elisângela, que depois de um câncer de mama começou a caminhar, mudou de vida e vai fazer a primeira maratona, e a bruna, que perdeu o movimento das pernas aos cinco anos, voltou a andar com fisioterapia, virou fisioterapeuta e cuida de atletas com um método de respiração. por coincidência, o método de oratória da mari também se chama vo2: voz, organização mental e oratória em ação. ela diz que o medo não é bloqueio, é energia de presença. é só treinar.
eu falei da coragem de ser o pior numa coisa nova. quem faz triatlo tem o direito de ser ruim em três esportes, hehe. e do trauma, que muitas vezes é a imagem do que poderia ter acontecido, o carro que quase te pegou. a segunda vez já é mais confortável, porque o cérebro entende que você não morreu.
fé, coragem e se conecte
pra quem acha que não dá pra viver do que ama, a mari disse pra reconhecer a própria história, tirar a escama dos olhos e cuidar mais da sua vida do que da do vizinho, porque na rede tudo pode ser editado. às vezes quem tá num patamar mais alto só queria o que você tem, tempo com a família e um sorriso verdadeiro. as pessoas só enxergam em nós o que a gente enxerga primeiro. e é a constância que traz resultado.
a frase dela é "fé, coragem e se conecte". e fechou assim: ser luz não é sobre brilhar, é sobre iluminar caminhos.
e você, tá postando mídia ou tá treinando?
fui. 💚


