pular pro conteúdo

início / blog / conversas

conversas

como nasce um sucesso que todo mundo canta, com norberto curvelo

o ex-cangaia de jegue contou no papo worklover® o caminho do "ai se eu te pego" de porto seguro até cristiano ronaldo, a música que leonardo gravou depois de uma briga em casa, e por que ele deixou o nome da banda pra trás.

por kerkbrander · fabiokerk®
· 1h33 de podcast · 11 min de leitura
assistir no youtube

no segundo papo worklover eu recebi alguém de quem sou fã há mais de vinte anos. você com certeza já cantou e dançou música do norberto curvelo, talvez sem saber que era dele. eu escutava a cangaia de jegue na cabrueira desde 2003, e em 2005 ele cantou, cabeludo, na festa de lançamento do grupo, junto com o irmão, o liderico neto. que, aliás, mandou umas histórias pra eu perguntar, hehe.

o menino que queria ser cantor

em 1989, no dia seguinte ao aniversário de dois anos do irmão, o padrasto pegou a câmera e começou a entrevistar as crianças. perguntou ao norberto, com sete anos, o que ele queria ser quando crescesse. "cantor." então canta. e ele cantou "pense em mim", de leandro e leonardo. a fita vhs se perdeu, a lembrança não.

depois quis ser goleiro, e quis ser médico, porque a mãe tinha problema no coração e ele queria cuidar dela. em eunápolis, à tarde, ajudava no escritório de contabilidade da mãe, parede com parede com a sede de uma banda de baile. a tia odiava o barulho dos ensaios. ele ficava na porta com cara de pidão, até o baixista, o dário, chamar ele pra entrar. ele tinha uns 13 anos, não tocava nada, e o cara escreveu as cifras num caderninho e disse: arruma um violão que eu te ensino. foi assim que começou, e as primeiras músicas nasceram de poemas pra namoradinha. ninguém ensinou que poema com melodia vira música, ele descobriu sozinho.

cinco músicas, uma hora e meia de show

em 2001 ele tocava cavaquinho, fazia vocal de apoio e dançava numa banda de pagode e axé em jequié, onde fazia faculdade. no são joão de 2002 a banda montou um repertório de forró pra ganhar um dinheiro, e ele ficou com um bloco de cinco músicas pra o cantor descansar. ele não conseguia cantar no tom do leandro e leonardo e só alcançava as músicas do falamansa, sem entender por quê, então entrou na aula de canto. em agosto, foi dar uma canja com uns amigos com aquelas mesmas cinco músicas e fez um show de uma hora e meia, enrolando e voltando. a galera gostou, e ali nasceu a cangaia de jegue. o nome saiu da cabeça dele. a primeira gravada foi "vou abraçar alguém", e ouvir a própria voz na rádio de jequié foi o primeiro arrepio.

a história do "ai se eu te pego"

tem gente que acha que música de sucesso é obra de uma pessoa só. essa é uma colcha. em porto seguro, três turistas começaram a cantar um refrão quando os dançarinos subiam: "ai se eu te pego". a sharon, que comandava a dança numa das barracas mais badaladas da época, gostou e fez um funk com aquilo. só que a introdução era longa demais e não pegou. uma excursão de feira de santana levou a música pra lá, e o dig, que era professor de cursinho, fez uma versão forró, "sexta-feira no cabanas", que começou a tocar com os filhos de seu zé. o norberto ouviu num camarim em feira e reconheceu na hora: essa é da sharon. ligou pra ela, que primeiro não quis liberar, depois liberou pra versão forró. nenhum dos dois cobrou nada, coisa de amizade.

ele trocou pra "sábado no forró" e, como era dançarino, adaptou pro forró a coreografia que faziam no funk. nenhuma banda de forró dançava, e não existia música de forró pra dançar sozinho. a cabrueira ajudou a espalhar a dancinha. num ensaio de são joão, a cangaia saiu de 150 pessoas pra 5 mil toda sexta. só o áudio no youtube chegou a 800 mil visualizações, aí fizeram o clipe (eu tava na gravação, na casa do edj) e foi a primeira banda de forró da bahia a passar de um milhão no youtube.

no réveillon de 2010 pra 2011, em natal, o norberto entrou numa festa com uma pilha de cd e jogou um no peito do wesley safadão, que tava no palco. ele pegou do chão, viu que era da cangaia, mandou um abraço. em duas semanas tava tocando. depois veio o michel teló, gravou no sertanejo, estourou no brasil, e com a dancinha do cristiano ronaldo estourou no mundo. a cangaia tinha um ano de exclusividade, sem ter pago nada, e não tinha dinheiro pra bancar algo nacional. e aí começou a confusão: as três turistas entraram na justiça como coautoras, fizeram acordo, e meses depois apareceram mais três, porque a música tinha sido inventada numa excursão pra disney, em 2006, pra um guia turístico bonitão, hehe. o norberto nunca quis entrar na briga.

eu chamei atenção pro que essa música tem de lição de marca: o momento uau da dancinha fácil. o é o tchan explodiu assim na televisão, o léo santana e o pedro sampaio fazem isso hoje de propósito. uma coreografia que criança aprende vira mídia espontânea.

bolo doido, mulher danada e companhia

passamos pelos sucessos. "dança do ice", que tocou em toda formatura do brasil e foi o primeiro ganha-pão de direito autoral dele. "beijo teu", que a banda disse que não cabia mais no cd e ele foi no estúdio escondido, gravou em dois dias e virou a mais tocada. "de frente pro mar", "sexta-feira, sua linda", "jeito carinhoso", "chama essa cerveja", "mulher bandida". e "bolo doido", que ele fez depois de ouvir muito essa gíria e pesquisar o que era. teve um mês em que o direito autoral de "bolo doido" rendeu uns quarenta e poucos mil reais, e ele e a joana usaram pra dar entrada no apartamento antes que o dinheiro sumisse.

a mais bonita é a de "mulher danada". ele fez um show, era pra chegar às duas da manhã e chegou às cinco, porque foi comer buchada no rio vermelho com a turma. a joana tava furiosa, pegou ele pelo cabelo comprido e sacudiu: não faça mais isso! ele pediu licença no meio da briga, foi pro quarto com o violão e saiu "mulher danada, que me pega, que me puxa igualzinho uma sanfona". tempos depois, o leonardo ouviu outra música da cangaia numa rádio em porto seguro e pediu pra gravar, mas a mãe dele, muito católica, não gostou de um trecho. mandaram outra. era "mulher danada". o menino de sete anos que cantava "pense em mim" teve uma música gravada pelo próprio leonardo. ele recebeu a ligação num aeroporto e não acreditou. "foi a realização de um sonho que eu nunca sonhei."

e eu nunca vi abertura de show como a da cangaia, aquela "e o mundo de gente se juntou pra ver a zabumba tocar", entrando instrumento por instrumento, e o fechamento tirando um por um até ficar só a palma. ele compôs sozinho, em teixeira de freitas, enquanto os amigos foram comprar cachaça. e contei ao vivo que conheci minha namorada dançando uma música dele, num show em que ele ainda falou meu nome do palco. ele já tá intimado pro casamento.

goleiro, tímido e dançarino

se não fosse cantor, seria goleiro. foi convocado pra seleção de futsal de eunápolis aos 17, mas passou no vestibular e foi pra jequié. na faculdade jogou de novo, ganhou torneio, foi chamado pra seleção da cidade e fraturou o dedinho no primeiro treino. ficou meses parado, o técnico faleceu, e a música ficou. ou seria tenista, se tivesse conhecido o tênis antes dos 35.

fora do palco ele é tímido e introspectivo. em cima, cresce de um jeito que pouca gente tem. eu tenho uma cicatriz na mão de um escondidinho que estourou quando ele e a joana foram lá em casa, e lembro de um show em que um ex-bbb subiu pra dançar e o norberto apagou o cara dançando swingueira. pouca gente sabe que ele foi dançarino. morou a 64 quilômetros de porto seguro, viveu a lambada e a lambaeróbica (fez a monografia sobre isso) e começou a dançar com o é o tchan. um dia, de chinelo numa barraca, se inscreveu num teste de dançarino que a sharon tava fazendo. passou, e aprendeu 30 coreografias em três dias. ele dançava sério, olhando pro chão, até ela puxar ele no camarim e dar uma bronca: o público quer ver seu sorriso, olha pra frente, brinca com a galera. ali virou a chavinha. quando sobe no palco, esquece vergonha e problema.

arrependimentos e a saída da banda

perguntei do que ele se arrepende. de umas brincadeiras de palco que hoje seriam canceladas, tipo "quem não bater palma nunca mais vai namorar", numa cidade em que o prefeito era padre e tava de braço cruzado (nunca mais tocaram lá). e de ter chamado de "capenga" um rapaz de muleta que dançava o show todo animado. achou que era perna quebrada, e depois foi pedir desculpa.

e falamos da saída da cangaia. eu fiquei revoltado na época, porque o nome era a cara dele. ele não se arrepende da decisão, só de a amizade com o júnior ter esfriado no meio da burocracia. "me deixa só meu violão, meu fone e meu microfone, eu quero paz." foi uma decisão pedida a deus, e ele torce por todo mundo que tá lá. diz que a cangaia foi a faculdade dele.

no auge, chegaram a receber 120 mil num show, porque a prefeita de uma cidade muito longe pagou dobrado pra não ter outra data na região. fizeram dois shows antes, em jequié, e foram em cinco táxis a 180 por hora numa pista estreita. "não sei como eu tô vivo até hoje." o recorde foi de 42 shows num mês de junho.

a família e a despedida da mãe

a joana tá com ele há 22 anos. a clarinha, que vai fazer 20, canta muito mais que ele. em 2019 ele sentiu que 2020 ia ser um ano de música estourada e propôs outro filho. veio a pandemia, dois anos sem tocar, sem dinheiro, e a alegria da casa foi o téo, que é autista. depois, no são joão de 2024, a joana enjoada, ele mandou foto do teste de covid negativo e ela mandou a foto do teste de gravidez positivo. assim chegou o léo.

ele contou da despedida da mãe, que já tinha feito cinco cirurgias no coração, tido avc e acidente de carro, e sempre seguia em frente. entrou no hospital com uma infecção que parecia simples e foi piorando. no último dia ela sofria pra respirar e ele entregou nas mãos de deus o que fosse melhor pra ela. ela se acalmou, os médicos deixaram os filhos ficarem a tarde toda falando no ouvido dela. na manhã seguinte, o hospital ligou. o medo que ele tinha da morte foi embora depois de ver ela de perto. o medo que ficou é o de não ser um bom exemplo pros filhos.

a joana mandou um áudio dizendo que ele é um pai maravilhoso e que o mundo seria mais feliz se mais gente conhecesse o trabalho dele. a clarinha mandou outro, rouca do carnaval. ele até cantou uma canção de ninar que fez com a melodia da sogra.

inteligência artificial e o sucesso de bater o pé

pra ele a inteligência artificial é maravilhosa. antigamente gravar uma música custava cinco, sete mil reais, e de várias gravadas às vezes nenhuma estourava. hoje ele pega músicas que tavam na gaveta, só letra e melodia, e a ia devolve uma banda completa. a música que ele fez pra uma cerveja tem uns 70% de base feita por ia, mas letra, melodia, voz e os instrumentos que ele gosta são dele. gastou cem reais em vez de cinco mil. o que ele não curte é pedir a letra pro chat e a música pra outra máquina sem colocar nada seu.

o recado que ele daria pro norberto de 2002 é acreditar mais em si. toda ideia em que ele bateu o pé deu certo. "beijo teu", que a banda não queria. "dança do ice", que fugia do pé de serra deles e a joana não gostou. "bolo doido", que a joana achou doida demais (e ele pensou: então é essa). e contou como "balada" foi parar com a cangaia: o compositor, o cássio sampaio, mostrou primeiro pro estakazero, que ficava num andar abaixo no mesmo prédio, e o léo quis. o norberto ligou pedindo, e o léo respondeu: "jegue, você quer todo o sucesso pra você?". terminou em dobradinha, cada um gravando com o outro.

o forró que faz falta

eu sinto uma lacuna no forró da bahia, e disse isso a ele. ele vê esperança no joão gomes trazendo o pé de serra de volta pro brasil inteiro, e no último são joão tirou as modinhas do repertório e botou falamansa, luiz gonzaga e as músicas dele. prefeito saía do camarim agradecendo. mas ele gosta de misturar, vem do pagode, põe cavaquinho em tudo, e fez com o neto, do tio barnabé, um show "entre o cavaco e a sanfona" que tá dando certo. as inspirações são leonardo, nando cordel, que o padrasto botava aos domingos, sandro becker, que deu um autógrafo a ele com sete anos e se emocionou quando viu anos depois, e luiz gonzaga e dominguinhos.

no bate-bola, sucesso é "aproveite o momento", família é essencial, música é amor, cangaia é saudade, o desafio é voltar ao sucesso e o futuro também.

pra quem tem uma paixão e acha que não pode viver dela, o conselho dele é praticar todo dia sem largar o ganha-pão. cantar, compor, tocar num barzinho no fim de semana, usar a tecnologia a favor. quando ele entra no estúdio de casa, acha que passaram quinze minutos e já foram três horas. e quando a paixão vira ganha-pão, aí é lindo.

qual ideia sua você abandonou porque alguém torceu o nariz?

fui. 💚

termos do glossário neste texto
gostou? manda pra quem precisa ler.
carta do kerk

um lampejo por e-mail, quando valer.

sem frequência fixa e sem encher sua caixa.

do silêncio ao barulho

se você não escolhe quem é, o mundo escolhe por você.

e quando o mundo escolhe, ele simplifica, rotula, empacota. sua marca começa com uma escolha, antes de qualquer post. bora?

onde há paixão, não há imitação.

agendar sessão flow →