
sábado, seis da manhã
acorda cedo comigo. sábado, seis da manhã.
fui pra feira de são joaquim, naquela hora que os feirantes ainda estão arrumando as mercadorias, quando salcity ainda tá se espreguiçando. fui direto no seu zé, que vende a granel. e lá estava ele, o arroz. branquinho num saco de algodão cru, com as bordas enroladas pra fora. me ajoelhei, peguei um punhado, deixei escorregar entre os dedos e fui sentindo a textura, o cheiro. devia ter sido colhido no dia anterior, ainda tinha o frescor da natureza nele.
pedi só quinhentos gramas. era pra um prato único, sem erro. o seu zé colocou com cuidado num saquinho menor de algodão, e dava pra ouvir o som do arroz escorregando do pegador de madeira e se amontoando ali dentro. um som miúdo, desses que você só escuta se estiver presente.
na cozinha
cheguei em casa e despejei o arroz numa tigela de barro que estava em cima do balcão de granito preto. lavei com a água fresca do filtro de barro, deixei escorrer aparando com um prato de esmalte branco de bordas pretas irregulares. cada objeto ali tinha uma história, um peso, uma temperatura.
aí fui pro tempero. descasquei o alho só com as mãos. tirei as melhores folhas do coentro, destaquei a cebolinha verde, ralei a cebola chorando um choro bom, hehe. tudo isso eu tinha acabado de colher da minha horta ali no quintal. macerei com carinho na cuia de madeira, e o cheiro subiu forte pela cozinha inteira. joguei uma pitada leve de pimenta do reino branca.
refoguei o tempero ainda hidratado numa frigideira de cerâmica. adicionei o arroz, dourei de leve, coloquei um pouco de água quente com flor de sal dissolvido. fiquei ali acompanhando a mudança dos ingredientes. mesmo tudo misturado, ainda dava pra ver e sentir cada um separado. era como uma banda tocando, sabe? a cada estalo da manteiga derretida dava pra identificar cada instrumento no meio do som.
passei tudo pra uma panela de barro com uma manobra de chef, a água já fervendo na quantidade certa. dei aquela mexida por toda a panela pra ver mais uma vez o que em poucos minutos eu ia servir. tampei, deixando uma frestinha entre a tampa e o barro, pra poder sentir o cheiro no instante em que ficasse pronto.
você quer o meu arroz?
então.
me responde uma coisa: você quer comer o meu arroz, que vai ficar pronto daqui a alguns minutos?
quer. eu sei que quer. e olha que é só arroz. quinhentos gramas de um dos alimentos mais banais que existe, aquele que quase todo mundo faz no automático, de olho no celular, sem nem lembrar depois se pôs sal.
lampejo: você não ficou com fome do arroz. você ficou com fome do cuidado.
fazer e fazer com amor
é essa a diferença entre apenas fazer e fazer com amor. entre executar uma tarefa e estar inteiro dentro dela. o grão é o mesmo do saco de cinco quilos do mercado. o que muda é a presença de quem cozinha. e essa presença atravessa a panela, atravessa a tela, atravessa a mesa, e chega em quem recebe.
eu chamo isso de ser worklover. workaholic é quantidade, worklover é presença. é estar tão dentro do que você faz que a pessoa do outro lado sente. e no fim, o que o cliente leva embora é o quanto de você tinha ali dentro na hora de fazer.
por isso dá pra sentir, em segundos, quem ama o que faz e quem só tá cumprindo tabela. e você sente onde isso mora: no acabamento, na escolha do grão, naquela frestinha da tampa que ninguém vê mas que muda o cheiro de tudo.
então antes de entregar seu próximo trabalho, aquele que você faria no automático, para e se pergunta: isso aqui é arroz de saco de cinco quilos ou é arroz da feira das seis da manhã?
quem recebe sente a diferença. sempre sente.
fui. 💚
publicado primeiro na carta do kerk, no substack. ver o original →


