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conversas

fórmula mágica não existe, com rafael peralva

no podmarkar especial gravado no mana, o peralva contou como saiu da travessia mar grande salvador pro triatlo, como um acidente de moto fez nascer a assessoria e por que traz o rosto dos filhos pra mente quando tudo dói.

por kerkbrander · fabiokerk®
· 45 min de podcast · 8 min de leitura
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eu já tinha ouvido o nome do rafael peralva em tanto lugar que tinha formado uma imagem na cabeça: o cara da corrida, do triatlo, o peralva que todo mundo do esporte conhece. antes de conversar com alguém eu gosto de montar um dossiê, peço uma pesquisa profunda na inteligência artificial e deixo ela rodar uns quinze minutos. e o que voltou me surpreendeu. além do esporte, tinha regressão, constelação, um lado holístico e uma ligação forte com a natureza, agora dividida entre a chapada e salvador. gravamos esse podmarkar especial no mana, no porto da barra, que pra ele é quase extensão de casa.

ser antes de ter

ele começou pela natureza, e não do jeito que a gente costuma pensar. andar descalço, praia, cachoeira, planta. "nós não somos matéria, somos energia." pra ele, quanto mais você se conecta com a natureza, mais se conecta com o seu lado humano, e menos fica preso ao que tem. ninguém tá dizendo pra largar o trabalho, a gente vive num país capitalista e foi educado pra estudar e ser alguém. o problema é quando o ter engole o ser. e aí vem a felicidade de dopamina imediata, que serve pra tapar buraco e não pra encher.

eu puxei pro lado da rede social, onde você vê a vida do vizinho sem ver o bastidor e acaba pensando no ter antes de ser. ele foi pra educação. adulto, segundo ele, não se educa, se ajusta. dos zero aos treze anos a criança aprende quem vai ser, e aprende pelo exemplo. "não adianta dizer pro filho não tomar coca-cola e se entupir de coca-cola." o exemplo arrasta. e o adulto que quer mudar tem um caminho, autoconhecimento e ajuda, mas precisa agir, porque saber é diferente de fazer. ele brinca que a gente muda por dor ou por amor, e que é melhor mudar por amor, porque a doença às vezes chega de vez.

da travessia ao triatlo

perguntei quando o esporte entrou, se por paixão ou por negócio. ele foi uma criança hiperativa, "dessas que caem pra frente", e os pais colocaram ele em todo esporte possível. competir mesmo começou em 1999, 2000, na travessia mar grande salvador e no circuito baiano de maratonas aquáticas. daí conheceu o treinador que plantou a semente do triatlo, e de lá pra cá são uns 25 anos. alguns ironman, dois ultraman, todos os circuitos do brasil.

o que ele mais repete pros alunos é base. não pra resultado imediato, pra longevidade. ele vê gente querendo virar corredor indo direto pra maratona, sem passar pelos cinco e dez quilômetros, sem sentir como o corpo reage. e critica o preço: o triatlo virou esporte de poucos, com bicicleta que trabalhador assalariado não compra. "pra fazer triatlo você não precisa estar numa prova, você só precisa nadar, pedalar e correr." hoje ele faz uma ou duas provas por ano, e o que mais alimenta ele é ser guia de um atleta com deficiência visual, há quatro anos.

o acidente que virou assessoria

eu quis saber quando o esporte virou ganha-pão. ele era atleta de um programa do governo do estado, numa época em que patrocínio não vinha por arroba, vinha por resultado. ficou sete anos seguidos nesse programa, que pagou o primeiro ano de aluguel e a primeira moto. em 2011, voltando de um ironman, no auge, já pensando em ter filho com a esposa, sofreu um acidente de moto grave. foram oito meses parado, cirurgias no joelho, e ele voltou sem o programa e sem o patrocínio da empresa privada. precisou se reinventar.

só que ele já tinha um sobrenome. a assessoria peralva nasceu ali, e no dia da gravação já eram uns 14 anos. eu fiz questão de parar a conversa nesse ponto pra quem tava assistindo, porque é a coisa que eu mais falo: marca pessoal nunca recomeça do zero. ele levou a imagem de atleta pra um negócio novo sem perder nada. o nome peralva veio dos resultados, mas também dos valores e do amor pelo esporte, e ele diz que tem aluno que viaja com ele há oito anos, de outro estado, de outro país, porque energia se atrai.

o atleta ansioso

o lado terapêutico veio da mãe, que sempre estudou filosofia, e principalmente dos próprios erros. com os dois filhos pequenos ele sentiu que precisava melhorar como pessoa, como marido e como pai. e confessou uma coisa que pouca gente imagina olhando pra ele: era um atleta ansioso, que tremia antes de largar e se sabotava antes de competir. "o maior competidor era eu." uma aluna e amiga apresentou um terapeuta que abriu a cabeça dele, e ele nunca mais parou de buscar.

hoje leva isso pro treino. antes de começar, de manhã cedo, com a turma na frente, ele aproveita o momento pra fazer todo mundo fechar os olhos e agradecer. tem aluno que se conecta, tem aluno cético que só escuta. mas ele acredita que o treino fica melhor e o dia também.

o mana e o thiago

já que estávamos lá, perguntei do mana. ele lembra do dia em que o thiago atravessou a rua, na época em que a assessoria se reunia do outro lado, se apresentou como bombeiro e apontou pra uma casa velha dizendo que ia fazer alguma coisa ali. o peralva falou pra ele pegar, porque quando inaugurasse a turma ia lotar. lotou. todos os eventos da assessoria passaram a terminar ali, com café, festa e conversa.

pra ele o mana é network e é quase um espaço terapêutico. o treino acaba às sete e meia e ele sai à uma da tarde, pulando de mesa em mesa, conhecendo gente da canoa havaiana e de outros esportes, gente que virou aluno e paciente. eu contei que, no ano em que remei, era comum a equipe toda fechar o treino lá, e conheço quem escolhe correr na barra só pra terminar no mana. ele resumiu dizendo que nada dura sem sentimento, nem relacionamento, nem negócio. quem vai pro trabalho só pra bater ponto pode até ficar muito tempo, mas vive com cortisol lá em cima.

bate-bola

a melhor rotina dele é com a família e treinando. o que faz todo dia sem ninguém ver é treinar. o papel do medo é ser enfrentado. a marca pessoal dele numa frase: nada fácil presta. o que ele faz que ninguém faz igual é sofrer o máximo possível até ver o dia em que dá, estar pronto pra guerra. nunca pensou em desistir. o que faz continuar é o amor pelos filhos. o que precisou desaprender pra crescer foi cair, e cair muito. na lápide, ouça o seu coração e seja sempre você.

dar é diferente de fazer

aí a conversa foi pra paternidade, e eu contei de mim. morei na roça até os doze anos, em mata de são joão, plantava de tudo e no fim de semana carregava caminhão de pedra. ele perguntou se uma criança de hoje aguenta cinco minutos olhando pro mar. e disse uma coisa que eu levei pra casa: o filho não lembra do que você deu, lembra do que você fez. o celular, o carro, o sim pra tudo podem até atrapalhar. o que fica é a bola, o banho de mar, o banho de chuva.

aí eu contei a história da minha filha, que um dia desenhou na escola ela brincando com a mãe e eu trabalhando. logo eu, que trabalho em casa há doze anos justamente pra ficar perto dos filhos. percebi que estava presente com o celular na mão. tirei um dia inteiro só pro meu filho, sem pegar o telefone, e de noite, deitado com ele, ouvi "papai, melhor dia da minha vida, você é um bom pai". numa fase profissional pesada, aquilo valeu tudo. acho que hoje a palavra mais escassa é presença.

o peralva tem dois filhos, de onze e sete anos, e diz que é pai desde antes deles nascerem, que sempre sonhou com isso. e contou o segredo dele nas provas longas. quando tudo dói e o cérebro quer tirar ele dali, ele respira, traz o rosto dos dois filhos pra mente e fala por dentro: papai não vai decepcionar vocês nem a mim. a dor some. "é o melhor doping que existe."

paciência e aceitação

no fim ele disse que o maior presente não é troféu de aluno, é saber que a pessoa acorda segunda, quarta, sexta e sábado e vai porque quer. e que existe um talento pra servir, como existe pra cantar ou escrever. a mãe dele conta que desde pequeno ele dividia o lanche com morador de rua. "eu poderia ficar milionário da noite pro dia, mas não mudaria quem sou."

a mensagem dele foi paciência, com muita aceitação. não importa se a mudança vem pela religião, pelo esporte, por uma doença ou por uma queda de moto. o processo pode ser curto ou longo, mas as coisas acontecem quando você busca. e ele deixou uma pergunta pra quem assiste, que eu repasso aqui.

qual é o seu propósito aqui nessa terra, tirando as coisas que você quer ter?

fui. 💚

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