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primeiro seja ok, depois seja foda: marca pessoal no core cast

quase duas horas de papo com a turma do core cast sobre presença online pra quem é da saúde, especialização, o perigo de virar refém de conteúdo e o tinder que lotou um café com branding.

por kerkbrander · fabiokerk®
· 1h52 de podcast · 13 min de leitura
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em abril de 2023 sentei com raul e a galera do core cast, o podcast que nasceu ao redor da clínica e da aldeia, o box de crossfit que eu frequento desde 2015. era pra falar de marca pessoal pra profissional liberal, principalmente da saúde, e virou quase duas horas de conversa, com piada de tdah, patrocinador entrando no meio e muita coisa séria no caminho. eu confesso que toda vez que vou fazer algo que gosto muito fico nervoso, e ali não foi diferente, hehe.

de onde vem o kerk

comecei contando do nome. fabio braga eu não conseguia registrar em lugar nenhum, fabio souza piorou, fabio albuquerque também não rolava. sou dos anos 80, época de fabio júnior, então toda turma tinha três, quatro fabios, e meu apelido sempre veio do sobrenome. no primeiro crachá, do primeiro emprego de carteira assinada, tava albuquerque, e daí as meninas tiraram o kerk. quando precisei registrar site e rede social, kerk já tinha afeto e foi ele. se você pesquisar fabio kerk hoje, só vai achar eu.

minha formação é uma colcha. sistemas de informação, design, docência, constelação familiar, psicologia (parei e voltei), hipnoterapia, palhaçaria, oratória na arte de falar. quase tudo curso longo, com carga horária alta e um pé no acadêmico, artigo e congresso.

o designer que percebeu um buraco

como designer, eu via a galera pedindo marca ousada, original, única. aí eu entregava algo peculiar e criativo e a pessoa não sustentava. comecei a entender que ela não aprovava porque não se conhecia, não vestia a camisa. tem a marca que te representa e tem a marca que você gosta, e as duas nem sempre são a mesma. a quantidade de gente que diz "sou muito alegre" e vive vestida de preto com cara de luto é absurda.

e tem um teste de autenticidade que eu adoro. o que as pessoas da sua família falam de você, o que o pessoal do trabalho fala e o que os amigos mais antigos falam. se os três batem, é autêntico. se uma pessoa diz uma coisa de você, pode ser implicância. se dez dizem, o errado provavelmente é você.

eu usava essas ferramentas antes de saber o nome delas. aos 17 anos trabalhei numa loja de surfwear no center lapa e passei a primeira semana perdendo venda: o menino experimentava a roupa, voltava no fim de semana com os pais e não lembrava de mim. na segunda semana comprei três camisas florais azuis e repetia pro cliente: volta e procura o menino da camisa floral. funcionou.

o dia em que um professor me cutucou

quando entrei na faculdade de design eu já trabalhava na área, levava cliente real pros trabalhos e vendia. um professor de semiótica, o cid de ávila, me viu chegar de bermuda, sandália e camiseta e disse que eu não me apresentava como o profissional que eu era, e que aquele era o lugar de fazer conexão. tem história por trás da bermuda: na orientação vocacional do terceiro ano eu tinha me visualizado trabalhando à vontade, e todos os testes davam artes cênicas, só que eu não tinha coragem de fazer teatro.

aquele cutucão me fez pesquisar. era 2008, o arthur bender tinha acabado de lançar o livro personal branding, e comecei a fazer palestra nos congressos internos da unijorge, sempre pras turmas que tavam se formando. foram uns sete anos mergulhando nesse universo até eu parar de entregar só logotipo e passar a fazer a base, pra pessoa ser aquela marca quando for usar ela. o meu ok, por exemplo, me acompanha pra onde eu for. se eu abrir uma loja ou uma concessionária, quem assina é o kerk. e é assim com você: se você é fisioterapeuta e abre um box de crossfit, quem gosta de você vai junto.

internet sempre existiu, só ficou maior

nós, imigrantes digitais, temos o desafio de levar pra rede quem a gente é olho no olho. tem profissional muito gabaritado que na internet não aparece com esse nível. e tem quem nasceu na rede com uma imagem incrível sem ter feito muita coisa ainda. a responsabilidade de quem vende mentira é enorme, mas quem consome também precisa pesquisar. colocou o nome no google? sabe de onde vem aquele conteúdo?

pra mim existem três jeitos de virar referência. estudar muito, colar num gigante e aprender ao lado dele até ele dizer que você também é bom, ou viver e vender a experiência que você conquistou. o problema de hoje é gente vendendo uma experiência que serviu pra ela, no contexto dela, pra quem não tem nada a ver com aquilo. eu chuto que bem menos de 5% de quem termina um curso online tem uma mudança real, e isso tem muito a ver com esse descompasso.

sempre teve o curandeiro competindo com o médico e o vizinho indicando o remédio que deu certo pra ele. a diferença é a proporção. por isso acho que todo curso online devia começar ensinando duas coisas: pesquisar e interpretar. e os grandes nomes que eu conheço mostram uns 20 ou 30% da vida real na rede. eu mesmo, quando posto treino em que fiz só 30% do que tava no quadro, escrevo isso na legenda.

ralar a bunda no asfalto

o raul tem uma expressão pra isso e eu assino embaixo: ralar a bunda no asfalto. todo mundo quer estar sentado no podcast ou no palco falando por uma hora, mas quer fazer o que a pessoa fez pra chegar ali? estudar anos, fazer centenas de marcas, ter atendido gente grande (já fui designer da ivete), falar pra plateia de todo tamanho. é como querer o tanquinho do cara da academia sem a rotina dele.

e aí entra o bordão que eu repito sempre: primeiro seja ok, depois seja foda. atleta grande é regular no básico, o lutador que não tem um jab muito bom não vai aprender cruzado. e quem diz que você é foda não é você. ninguém viu a ivete pedindo pra ser chamada de rainha.

o raul contou de um atleta que ganhou visibilidade nas olimpíadas de tóquio e que, dez anos antes, era tratado na clínica-escola da faculdade porque não tinha dinheiro pra fisioterapia particular. depois da medalha ele descobriu que podia ganhar bem dando palestra, e nem percebia que a história de insistência dele era justamente o que tinha pra contar.

o caminho não precisa ser sacrifício, mas pede disciplina. o bert hellinger diz que fácil é o que é permitido vir. e eu gosto de "vista-se do que deseja se tornar", com uma ressalva: não precisa sair da camiseta pro terno, ainda mais em salcity, onde terno só faz sentido no ar-condicionado. é adequação ao que você sustenta.

questionar, errar e comemorar o erro

citei uma pesquisa da nielsen dizendo que 84% das decisões de compra vêm de indicação de pessoas, não de empresas. relação é pessoal. mas até médico famoso e cheio de conteúdo fala bobagem às vezes. eu digo pros meus alunos questionarem o que eu falo, porque professor hoje não é dono do conteúdo, é facilitador do acesso a ele. não compartilho notícia sem pesquisar, ainda mais na saúde, onde o ovo fazia mal e depois não fazia mais.

e o erro precisa ser comemorado. na formação da arte de falar, a escola da mariana freire aqui em salvador, a primeira coisa que se aprende é comemorar quando erra. no começo é estranho, depois eu passei a rir sozinho no carro quando falava besteira. imagem ajuda, claro: a nutricionista que vive o que recomenda encurta o caminho da confiança. mas não é regra. tive professor de educação física gordinho que sabia muito, e conheço coach de cross que nem faz crossfit e ensina muito bem.

todo profissional é uma marca

mesmo que não queira, porque sempre vão falar alguma coisa de você. e você não cria uma marca pessoal, você desenvolve, porque ela já é sua. quando perguntei pra família, amigos e trabalho como me viam, apareceu muito "fabio é chato". vou brigar com isso? não. o lado bom de ser chato é ser criterioso, detalhista, observar tudo. é isso que eu vendo. tenho um amigo fotógrafo que todo mundo chama de marrento e sisudo, e é exatamente por isso que confiam no trabalho dele.

atendi uma psicóloga de sessenta e poucos anos, com livro publicado, que não conseguia produzir conteúdo. falei pra ela que quem tem conteúdo certo também é responsável por ocupar a internet, senão o espaço fica pra quem fala errado. o primeiro exercício foi perguntar pra mãe dela como ela a via. na sessão seguinte chegou emocionada, dizendo que se morresse sem ouvir aquilo ia morrer feliz.

pra organizar: marca pessoal é o que você tem e todo mundo enxerga. branding pessoal é a gestão disso, levar o que você tem pras pessoas. se você é alegre, tem som, cor, vocabulário, roupa e até cheiro de alegria. marketing pessoal são as ações pra vender isso. e site continua importante, porque rede social pode cair e conta pode ser bloqueada, o site ninguém te tira. quem já decidiu contratar pesquisa no google. e quando você cansar de repetir o mesmo assunto, repete por mais dois anos.

presença online sem virar refém

o raul trouxe a dor de quem é da saúde. médico demorou a se mostrar por causa do conselho, nutricionista passou a mostrar o corpo como resultado e a fronteira com blogueira ficou fina, e o fisioterapeuta com mais seguidor é o que faz live domingo à noite com o fantástico passando. meu recado: presença online não é ser refém de conteúdo. é ter um perfil organizado dizendo o que você faz e pra quem, alguns conteúdos que mostram que você é real, uma foto do congresso, um cliente que autorizou. dá pra gerar muito com pouco: um tripé gravando uma aula sua rende uns trinta vídeos de um minuto. quem vira refém adoece, eu sei porque já passei por isso.

e se o cliente não pode virar seu amigo depois da consulta, talvez não seja o seu cliente. desde a faculdade eu digo que concorrência prostitui e parceria educa. e tem outra: critique fazendo melhor.

o medo de se especializar

quando operei o ombro, eu podia escolher um médico, um ortopedista, um especialista em ombro, ou um especialista em ombro de homem de 40 anos que pratica esporte amador. salvador tem uns dois milhões e seiscentos mil habitantes, e esse último não dá conta de toda a demanda. especializar não é perder, é criar seu mercado. antigamente falavam em milhares de horas pra virar especialista, hoje em seis meses consumindo, lendo e atendendo o mesmo tema você já sabe muito mais do que quem estudou quatro anos e não se jogou.

falamos de um cara que criou um jogo de cartas inspirado em magic, todo cheio de baianês, coisa que só quem é daqui entende. tenho um primo que morou seis meses na índia pra lançar um jogo de cartas pros indianos. e a internet deixa o gótico, o punk, quem não se encaixa no bairro, achar a sua turma. não existe pergunta idiota, existe o idiota que sai com dúvida.

referência, netweaving e microconexões

autoridade é cargo, é chefe, é polícia. referência é exemplo, é quem faz e arrasta os outros. e networking pergunta o que aquela pessoa tem de bom pra mim, enquanto netweaving pergunta o que eu tenho pra ajudar ela. na rede eu me conecto com quem tem microconexões comigo: sou pai com guarda compartilhada, faço terapia há anos, participo de grupo de homens, gosto de dança e de crossfit. o cliente que tem alguma dessas comigo deixa o trabalho mais gostoso pros dois. e você termina o dia menos sugado.

worklover®, que eu tenho tatuado, não é uma coisa mágica. é amar o trabalho sem deixar de se cuidar, de comer bem, de ver os amigos e a família. o workaholic exclui todo o resto.

o tinder que lotou um café com branding

tem uma história que eu conto rindo. ia fazer um café com branding em recife e não conhecia quase ninguém lá. ativei o tinder em recife, botei o banner do evento no perfil e só dava like em fisioterapeuta, médica, psicóloga, profissional liberal, o meu público. vieram 83 pessoas, e cinco chegaram pelo tinder. ninguém saiu com ninguém, virou amizade e seguidor. é uma hipérbole, mas mostra que seu cliente pode estar em qualquer lugar, inclusive numa festa, contanto que você ame falar do que faz.

o rebranding da alfa

contei do trabalho com a alfa, marca de roupa de treino daqui de salvador. eu conhecia as camisas pelo meu irmão (baratas, boas, duram muito) e um dia vi um dos donos usando e perguntei por que usavam aquele lobo geométrico tão comum. ficamos namorando um tempo até eu desenhar o novo símbolo, um lobo em movimento. com empresa é mais difícil do que com pessoa, porque o dono enxerga a empresa de um jeito e funcionário e cliente enxergam de outro. no briefing ficou claro o que eles já praticavam sem dizer: preço justo. em vez de gastar com embalagem cara, investir no produto e na entrega. hoje o propósito é empolgar o movimento diário das pessoas a um preço justo, porque ninguém deixa de treinar no dia de camisa nova.

e quem diz que não sabe vender provavelmente já indicou um filme ou um restaurante e a pessoa foi. quem não se compra não se vende. minha tia lídia, na semana santa, enche a casa da minha vó no lobato de gente que nem conhece e empurra comida em todo mundo, porque cozinha por prazer. quem faz por prazer faz a gente querer apresentar ela pra alguém.

cinco dicas pra quem é profissional liberal

primeiro, decida ter presença online e fique num perfil só. você não é duas pessoas, e separar pessoal de profissional faz o algoritmo achar que o perfil profissional não conversa com ninguém. decidiu, faz.

segundo, clareza do que você tem de diferente. dentro da fisioterapia, você é só mais um. o fisioterapeuta da galera do jiu-jitsu já é outra coisa, mesmo que você atenda corredor também. minha filha resume o meu assim: meu pai transforma as pessoas em marca.

terceiro, entenda seu tempo. gerar conteúdo ou ter só uma presença estática, o que for saudável pra você.

quarto, conheça seu cliente a fundo. na internet se fala com uma pessoa específica. se seu público é mãe, você sabe que o melhor horário é logo depois que ela deixa a criança na escola, e sabe onde ela passa, inclusive digitalmente.

quinto, trate tudo isso com responsabilidade e vista a camisa. muita gente deseja, pensa, e morre sem fazer. e salvador sofre com isso: a mesma gente que paga caro em camarote não quer pagar cem reais num evento local. a origem merece ser valorizada.

micromovimentos e o recado final

de bônus falei dos micromovimentos, as ações que você repete até virarem sua linha editorial. "primeiro seja ok, depois seja foda" é um. a música que eu coloco nos meus treinos há quatro anos é outro, tem gente que me marca quando escuta. o bell marques e a bandana, o dente do ronaldinho, a mecha branca do bonner, são características que a gente reconhece só pela silhueta. e uma menina me disse que não postava que gosta de sertanejo pra não ser julgada. falei que é justamente isso que filtra quem não te respeita.

o recado final veio de uma frase que me chegou antes de um evento em recife e que eu repito até hoje. quando você escutar o seu silêncio, vai estar pronto pra fazer o barulho que deseja. você não precisa brigar pelo seu espaço, só ocupar ele naturalmente.

e aí, já perguntou pra sua família, pros seus amigos e pro seu trabalho como eles te veem?

fui. 💚

gostou? manda pra quem precisa ler.
carta do kerk

um lampejo por e-mail, quando valer.

sem frequência fixa e sem encher sua caixa.

do silêncio ao barulho

se você não escolhe quem é, o mundo escolhe por você.

e quando o mundo escolhe, ele simplifica, rotula, empacota. sua marca começa com uma escolha, antes de qualquer post. bora?

onde há paixão, não há imitação.

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