a nutricionista que vive o que recomenda, com thais burgos
no podmarkar, a thais contou como a pandemia fez ela misturar vida pessoal e nutrição nas redes, por que posta o hambúrguer do pós-rolê, de onde veio o "mozão" e o que o conselho da profissão ainda não acompanha.
eu apresentei a thais burgos assim: nutricionista, mas não daquelas que entregam uma tabela de caloria e esperam resultado. atleta amadora e influenciadora de hábitos, que transformou a própria rotina no maior argumento do trabalho. ela fala de movimento, equilíbrio e propósito, e faz a audiência sentir que é possível pra ela também. a gente se conheceu no crossfit, e ela é dessas que experimenta todo esporte.
várias skins
perguntei como ela dá conta de misturar influência, nutrição, vida de atleta e ainda ser empresária, com a clínica. ela brinca que tem várias skins. é aquariana, mas uma aquariana organizada, que planeja a semana e o dia, e diz que a disciplina veio do crossfit. o movimento é a terapia dela. tem um projeto pessoal tirado do papel pra mostrar essa vida ligada no 220. trabalhar com nutrição e mudar vidas pelo trabalho é "a minha cachaça". ser empresária tá sendo mais difícil do que imaginava, mas ela gosta de se sentir desconfortável. "pelo menos a cada seis meses eu preciso começar algo em que eu seja a pior do grupo." agora voltou pra faculdade, de psicologia.
a nutrição que escolheu ela
o que veio primeiro foi a nutricionista. ela queria cuidar de gente, pensou em medicina, mas tinha medo de sangue e de emergência. uma tia nutricionista foi morar na casa dela, e ela viu de perto o quanto aquela mulher mudava vidas com um prato de comida. "acho que a nutrição escolheu a thais." na faculdade, chegou a fazer três estágios ao mesmo tempo, em produção de restaurante, hospital e clínica, pra ver a nutrição de todos os ângulos, e descobriu que gosta mesmo é do consultório, ela e o paciente.
a nutrição em que ela acredita é a do conhecimento. ninguém foi ensinado a comer, e por isso cresce com medo do pão. eu contei que, numa reeducação, me pediram pra cortar o pão, e preferia cortar a carne, hehe. ela explicou que um pão francês tem uns 25 gramas de carboidrato, uma ótima porção pro café da manhã, desde que venha com proteína, um ovo, um frango, pra dar saciedade. "a nutricionista tem que ser a professora que as pessoas não tiveram."
o suco de beterraba
contei uma história de quando eu tinha uns 25 anos e uma rotina alimentar horrorosa. fui dar uma aula de forró no interior, parei numa lanchonete e pedi um enroladinho com coca-cola. do outro lado, uma moça gritou: "me dê um suco de beterraba, batido com casca, sem coar e sem açúcar". pensei: essa mulher deve ser muito chata. era nutricionista. com o tempo, saindo com a turma, vi que ela comia hambúrguer e pizza, e que aquele suco era prazer dela, não sacrifício. foi uma das primeiras vezes que eu percebi o que é andar como fala, ser o resultado do próprio trabalho. e é o que eu sempre vi na thais.
ela disse que produzir conteúdo é natural porque é ela. "o melhor produto pra eu vender sou eu", porque ninguém conhece melhor a consulta dela. já contratou agência de marketing e recebeu conteúdo de nutrição genérico, com cara de chatgpt. quem pergunta pra ela sobre jejum intermitente quer a opinião da thais, não a definição. eu confirmei: quando eu cuidava da rede social da ivete, a gente preparava a frase, a foto e a legenda, mas quando ela mesma pegava o celular e gravava, tudo mudava.
o hambúrguer da quarta à noite
o clique veio na pandemia, quando ela precisou buscar paciente pela rede. no começo tinha vergonha de aparecer, mas seguiu o lema "antes feito do que perfeito": não tinha a melhor câmera nem a melhor luz, tinha o celular. começou a mostrar o dia a dia, e as perguntas que chegavam não eram só de nutrição: qual a cor do esmalte, onde ela faz a sobrancelha, o que come, quanto gasta no relógio. ela entendeu que as pessoas queriam entrar na vida dela, e passou a misturar.
uma paciente marcou consulta porque viu a thais, ansiosa numa quarta à noite, pedir e comer um hambúrguer, e pensou: ela não vive numa caixinha. outra vez, depois de beber com os amigos, ela foi comer um fast food e postou como "café da manhã da nutri". uma amiga disse que pegava mal. "eu sou real, eu não faço isso todo fim de semana." choveu mensagem. ela se cuida em 80% do tempo, com esporte, terapia e comida, e os outros 20% não vão destruir nada. quanto mais real, mais o consultório enchia, até ela abrir a clínica com a sócia. ela fala palavrão, treina como doida, odeia correr e corre, mostrando a bolha no pé e confessando que não sabe ler pace. "eu não quero um público chato."
eu chamo isso de lovenicho®: se não dá pra ficar pro café com o cliente, não vale ter esse cliente. ela disse que os pacientes viraram amigos e que vai até a casamento deles. e confirmou que não usa filtro nem se maquia pra gravar. "se eu me planejar demais, eu não faço." eu completei que todo conteúdo alisado demais costuma flopar e deixar a pessoa dias sem postar. hoje ela tem alguém pra arte e um filmmaker uma vez por mês, mas o resto é ela e o celular. na clínica, a sócia é mais da criação e ela é da execução.
comida de verdade
perguntei se a filosofia de comida de verdade, sem extremismo, combinava com ela. cem por cento. ela é contra o terrorismo nutricional, contra demonizar alimento. o básico funciona, o feijão com arroz na quantidade certa pra cada um. e lembrou que a maioria das pessoas espera passar o natal ou o são joão pra ir à nutricionista, porque acha que ela vai entrar na vida pra tirar alguma coisa. "eu não entro na vida de ninguém pra tirar, eu entro pra somar." dieta tem prazo de validade, e você vai comer três vezes por dia pelo resto da vida. por isso ela nem fala em reeducação alimentar: ninguém foi educado. é educação nutricional, pra você dominar o prato, e não o contrário.
eu contei que, quando mudei minha alimentação de verdade, nunca mais voltei pro que era, e que pra qualquer mudança de vida eu indico começar pelo esporte, porque a disciplina leva a alimentação junto. ela concordou e confessou que odiava atividade física. era a menina que fugia da educação física pra não suar o cabelo. o crossfit foi o divisor de águas: viu mulheres subindo na corda e plantando bananeira e decidiu que ia aprender. foram oito anos. hoje faz musculação seis vezes por semana sem amar, por disciplina, e ainda futevôlei, tênis, funcional, corrida, dança e, quando dá, yoga. duas horas por dia. e assume que malha pra ficar bonita também, mas o prazer faz ela cuidar cada vez mais do corpo. eu costumo perguntar pros meus clientes sedentários se eles querem depender de alguém pra limpar a bunda na velhice, hehe.
e ela fez uma observação que me pegou: as pessoas querem o mais difícil. querem comer cada vez menos, tomar remédio, fazer jejum, quando o básico, cardio, musculação e comida certa, ninguém quer. e nem tudo num lugar saudável é liberado sempre. o que salva é conhecimento.
o mozão
eu tinha curiosidade sobre os detalhes que ela repete, porque marca pessoal não é só o símbolo gráfico, é o que você escolhe repetir. o "mozão" veio do consultório: ela sempre sai da sala pra buscar o paciente na recepção e diz "oi, mozão, seja bem-vinda". percebeu que jargão gera conexão e passou a dar bom dia aos seguidores do mesmo jeito. hoje, quando alguém chama ela de mozão na rua, ela sabe que veio do instagram. no começo ela achava que repetir cansava, e descobriu o contrário. mesmo falando todo dia que pode comer pão e feijão com arroz, o paciente olha o cardápio e pergunta se pode comer feijão com arroz. e quem chega novo precisa ouvir.
pra dar conta das skins, ela criou um cronograma. toda terça, dia de consultório cheio, abre caixinha de perguntas com o mesmo texto: "manda que a nutri responde, mozão". às quintas faz o tbt do resultado, mostrando um caso de paciente, ou a "nutri sincerona", com as verdades que doem. ter dias fixos facilita, porque produzir conteúdo é um desafio e tem dia em que não sai nada.
o conselho e os homens sem noção
perguntei se já teve tensão entre ser nutricionista e influenciadora. teve. o conselho da profissão é criterioso e, pra ela, o código de ética tá ultrapassado diante das redes. ela e outros colegas já foram chamados atenção, enquanto gente sem formação fala absurdos sem conselho nenhum. "eu que tenho diploma e responsabilidade tenho que me privar." ela não gosta de ir pelo caminho errado. "se eu fosse errada, eu tava rica." o trabalho dela é de formiga, mudar a cabeça das pessoas, e é mais lento.
também perguntei como ela lida com os homens sem noção, porque muita cliente minha trava de gerar conteúdo por causa de comentário de amigo do pai e foguinho no stories. 84% do público dela é feminino, porque o conteúdo é pensado pra atrair a cliente dela, não pra viralizar com besteira. ela bloqueia, oculta comentário e, quando um vídeo viraliza e chegam muitos homens, remove seguidor pra manter o público certo. teve um que parou ela na rua de forma desagradável, e ela bloqueou. e já teve paciente que marcou consulta pra conhecer ela, mas "onde se ganha o pão não se come a carne". eu ri e contei que, quando era solteiro, sempre preferia fechar o serviço do que o date.
o erro e os milagres
o erro dela, no começo, foi achar que número de viral dava retorno, e que a vida pessoal dela não importava. eu contei de um empresário do mercado imobiliário dos estados unidos que resolveu falar a verdade sobre os bastidores numa rádio, os assessores ficaram desesperados, e no dia seguinte ele ganhou o próprio programa. autenticidade vende quando você entende que é uma entidade que merece respeito.
e tem uma coisa que pouca gente sabe. antes da nutrição, ela não comia fruta nem verdura e odiava exercício. a mãe se espantou quando ela escolheu o curso. foi a nutrição que mudou a thais. "se eu mudei, eu mudo qualquer pessoa, mas porque eu estava disposta." os pais ainda são o desafio dela, santo de casa não faz milagre, mas a mãe acabou de voltar pro crossfit.
pra ela, o mercado da saúde ainda erra vendendo milagre. a canetinha na barriga e o sofá. as pessoas estão cada vez mais doentes porque ninguém quer mudar hábito, e hábito dói. eu disse que na minha área é igual: vendem a vida perfeita e muita gente aluga casa e carro pra parecer o que não é, e depois não sabe o que postar.
bate-bola
a rotina perfeita dela é acordar cedo, jogar futevôlei, fazer musculação, tomar um bom café, atender uns cinco pacientes, ter reunião e terminar o dia numa aula de dança com as amigas. a primeira coisa que faz ao acordar é lavar o rosto com água gelada. a palavra que define ela é autenticidade. o que ela faz como ninguém é mudar comportamento pela fala, provocar. os nãos mais importantes foram pra tia, quando saiu do consultório dela pra abrir o próprio, e pra um relacionamento que não ia pra frente. afeto, pra algumas pessoas, virou estratégia. autenticidade tem limite, porque algumas coisas a gente preserva. e dinheiro e paixão se dão super bem, desde que você faça os dois direito.
eu lembrei que num grupo de mentoria que frequento, ser chamado de blogueiro é elogio, porque o dono de negócio que não for o blogueiro do próprio negócio vira refém de blogueiro. e que a marca pessoal vai com você se um dia mudar de profissão. não é pagar uma identidade visual, é escolher o que você já faz de verdade e repetir. criança assiste o mesmo desenho mil vezes porque precisa saber o que vem, e a gente confia em quem repete.
a mensagem dela foi direta: o nosso maior bem é o corpo, e se a gente não cuidar, ninguém cuida. "o caixão só cabe um corpo, e é o nosso." disciplina, foco, e mudar por você, porque quem sente 100% dos benefícios é você.
o que você ainda espera passar o são joão pra começar?
fui. 💚


