de bombeiro a fundador do mana, com thiago fonseca
no primeiro podmarkar especial gravado dentro do mana, no porto da barra, o thiago contou como um quiosque de nove metros quadrados virou ponto de encontro, como sobreviveu à pandemia vendendo café de isopor e por que não queimar a ponte.
o podmarkar é onde a conversa acontece com contexto e conteúdo direto, porque marca tem que marcar. essa edição especial foi gravada dentro do mana, no porto da barra, às seis e meia da manhã, com a casa já funcionando em volta. e o convidado foi o thiago fonseca, que foi vendedor de calçados, panfletista, motorista de madrugada, recenseador do ibge e bombeiro antes de fundar, em 2018, junto com a esposa, a andressa, um lugar onde as pessoas não vão só pra comer, vão pra pertencer.
perguntei se chamo ele de thiago fonseca ou thiago mana. hoje a galera reconhece como thiago mana, mas o fonseca vem da mãe e do avô e carrega muita coisa. e eu disse uma coisa que sinto: quando muita gente fala que alguém é gente boa, não tem como ser mentira. em todo lugar onde ouvi falar dele, veio junto o rótulo de trabalhador.
o comércio que vem do avô
a variedade de trabalho ensinou primeiro a lidar com público. com 17 anos ele teve a primeira carteira assinada numa loja de calçados, mas vendia umas coisinhas desde os 14, porque nunca gostou de ficar parado. ele é da mata escura, bairro da periferia de salvador, e faz questão de dizer que nunca passou necessidade: quem passou foram os pais, que trabalhavam pra pagar a escola dele e do irmão, hoje nutricionista no chile. na adolescência ele gostava mais de festa do que de estudar, até entrar no cefet e a cabeça abrir.
e um dia ele parou pra pensar de onde vinha essa veia comercial. o avô era o único comerciante da família, tinha uma venda na roça, no recôncavo, e era um homem muito querido. foi sargento da pm. o thiago foi cabo do corpo de bombeiros. "nunca tinha parado pra analisar isso." nada é por acaso.
o que o quartel ensina
ele fez o último concurso em que bombeiro ainda era vinculado à polícia, em 2014, e foi da primeira turma emancipada do corpo de bombeiros da bahia. trabalhou doze anos no operacional, sempre no mesmo quartel, nas mesmas viaturas. quando chegou a cabo, sentiu que tinha cumprido a missão de salvar vidas, e saiu dizendo ao coronel que o contato continuava o mesmo. "uma vez bombeiro, sempre bombeiro." já entrou no mar à paisana pra tirar vítima de afogamento na barra e já atendeu incêndio perto do prédio dele.
o que o bombeiro levou pro empreendedorismo foi disciplina. e ele admite uma contradição que muita gente vive: é indisciplinado na vida pessoal e extremamente disciplinado como empreendedor. pelo menos um lado tem que ser muito organizado.
nove metros quadrados
a história começa com o baiano mostrando a bahia pra gaúcha. eles saíram de um show da ivete, vieram caminhando pela orla, viram uma placa de aluga-se num quiosque ao lado de uma loja de stand up paddle, e era a época do boom do açaí. com uns dez mil reais, parte emprestada pela mãe dele e parte das economias da andressa, montaram o quiosque. o pessoal do sup e da canoa começou a frequentar, o mana ganhou fama nessa bolha do esporte, e a fila ficou absurda. cliente antigo lembra de esperar duas horas por uma tapioca, hehe.
eu lembrei que muita gente achava que ele era funcionário da esposa no negócio. "até hoje", ele riu. cresceu tanto que precisava expandir. um dia, sentado na barraca de coco em frente, ele olhou pra uma casa e pensou que cabia um mana maior ali. conseguiu alugar em setembro, abriu em março de 2020 e passou o carnaval. aí fechou tudo. eles tinham investido literalmente tudo, e o primeiro filho, o pedro, tinha um ano.
não queime a ponte
aqui ele não romantizou. o salário de servidor público bancou o básico, e isso deu tranquilidade pra segurar a onda. e virou a lição que ele passa pra todo mundo: não queime a ponte. comece devagar, no que você é bom, estudando, mas não largue tudo de uma vez, porque às vezes é preciso voltar. ele critica esse empreendedorismo de palco que manda largar tudo e cair no mundo. "a gente chorou, a gente perdeu noite", e esse "a gente" é sempre ele e a andressa. ela é mais discreta nas redes, mas é quem toca a loja matriz nos bastidores, além de ser fisioterapeuta e mãe de duas crianças.
com tudo fechado, eles se perguntaram no que eram bons. café. os hotéis da barra estavam com as cozinhas paradas, e eles passaram a fornecer café da manhã. acordavam às três, os pais da andressa chegaram a ajudar de madrugada, e às seis ele saía com caixa de isopor, sem vergonha nenhuma, entregando nos hotéis. teve mês de fechar 30, 35 mil reais só com isso, os dois sozinhos.
e tem a história que eu adoro. pra ganhar tempo, ele colocou uma caixa de isopor gigante, dessas de carnaval, em cima da bicicleta. na ida foi empurrando e deu certo. na volta, isopor vazio, resolveu subir: duas garrafas de café numa mão, o isopor na outra, segurando o guidão. na primeira curva, perto do iate clube, apagou. juntou tudo e voltou como se nada tivesse acontecido, com uma bola do tamanho de uma laranja na cabeça. foi pro hospital, fez tomografia, não deu nada, e na noite seguinte já tava no mercado comprando pra vender no outro dia. "se não mata, ensina." hoje ele treina numa bike de speed, mas sem segurar nada.
conexão e recorrência
eu já fui correr na barra só pra terminar tomando um açaí no mana, e quando remava numa equipe de canoa, a gente sempre fechava o treino lá. perguntei como surgiu essa conexão. no começo era a galera da canoa, do sup, do mergulho, atendida no balcão. ele diz que na mesa a gente senta com amigo e até com inimigo. mas a palavra que ele usa é recorrência. quem pratica esporte tem dia fixo, e isso vira hábito. teve atleta esperando o mana abrir às seis da manhã. o atendente conhece o cliente pelo nome e o cliente conhece o atendente.
eu sempre gostei do sistema de pedir pelo qr code na mesa, e ele explicou que veio da pandemia e virou necessidade: o mana atende umas 15 mil pessoas por mês, e no fim de semana a cozinha e o salão fazem mágica pra servir em 15, 20 minutos. o pedido sai da mesa direto pra cozinha, sem erro de quem anota. e quem não quiser usar ganha alguém pra atender do jeito que preferir.
perguntei como é tocar negócio com a esposa. ele disse que como namorados brigavam, mas casados entenderam que não tinham tempo pra debate que não leva a lugar nenhum. chegaram a morar em cima do mana. ela nunca se meteu na operação, mas sempre aceitou os riscos calculados que ele propôs, mesmo quando achava que ele não devia. ele já abriu e fechou loja. onde não tem objeção, não tem briga, tem confiança.
o trabalho social
a família é o centro, e não só a dele: o mana tem 30 funcionários diretos e muitos fornecedores que viraram amigos. a gerente atual entrou como supervisora de cozinha e já tinha sido auxiliar de serviços gerais em outras empresas. ele se diz minimalista. se fosse só pela família, poderia continuar tomando um cafezinho comigo sem pensar em expansão. mas acha que o empresário tem um papel social de gerar emprego e renda. e contou que ele é cristão protestante e a andressa é kardecista, e isso nunca foi problema.
pedi o mana numa frase: "o melhor da vida". porto da barra, esporte, comida boa, energia. quando ele levou a gaúcha pra itacaré, barra grande e moreré, ela se apaixonou pela bahia, e eles quiseram esse lifestyle na cidade. diziam que a barra só tinha bar de litrão e coisa ruim. eu disse que o mana é muito eclético: turista, atleta, passante, a galera da praia, todo mundo. ele chama de evolução do porto da barra. tem turista que conhece salvador pelo mana. e eles foram dos primeiros a fazer café da manhã fora de padaria, antes dessa moda de brunch.
bate-bola
o hábito que sustenta ele é conversar com deus. o que faz todo dia sem ninguém ver é reafirmar o compromisso com a própria conduta. o não mais importante que deu foi à vida que tinha antes de casar. dos nãos que recebeu ele não guarda nenhum, bola pra frente. o que precisou desaprender pra crescer foi deixar um pouco o coração de lado. pensou em desistir inúmeras vezes, e o que faz pra continuar é respirar. a conquista de que se orgulha é a família. quer ser lembrado pela integridade. e sobre a lápide: "quero entregar as coisas em vida".
pertencimento, tinder e cuscuz
eu disse, como profissional de marca, que marcar o mana numa foto posiciona a pessoa num lugar diferente de tomar açaí em qualquer outro lugar. e que a cultura de lá vem do jeito dele, não de um manual. ele contou que a marina, que cuida do marketing, teve o primeiro encontro com o namorado lá. que uma cliente vai casar e quer potinhos de smoothie na recepção. e que o perfil do mana virou uma espécie de tinder, com gente postando foto de braço e barriga pra ser repostada e outros perguntando no privado quem é fulano, hehe. a regra dele é não se envolvam no mana, porque depois briga e os dois param de vir.
o carro-chefe de memória é o smoothie de cacau com amendoim, mas o que vende disparado é o cuscuz, receita da mãe dele, com milho de qualidade e um ponto de hidratação específico, sem açúcar e sem sal. quase todos os produtos nasceram no balcão, com cliente pedindo pra pôr amendoim no açaí. o sanduíche de pepperoni que eu sempre peço nasceu de um lanche que ele fazia em casa e começou como pizza aberta. eu sempre fechava pra comer, hehe. hoje são uns 120 produtos.
o clique e a rede
o clique veio depois da pandemia. eles não tinham lastro financeiro nem histórico com banco, porque só usavam banco digital, e passaram dois, três anos em subsistência, reinvestindo tudo. só no ano passado compraram o primeiro apartamento. a virada mesmo foi de dois anos pra cá, junto com a abertura de uma nova unidade e a sociedade com o gustavo, que ligou do nada querendo expandir com ele. já tinham proposto levar o mana pro rio, são paulo e até estados unidos, mas o gustavo era alguém que ele achava inacessível. ele agradeceu a muita gente que abriu portas sem pedir nada, e a clientes como uma médica que pediu a senha do instagram do mana pra cobrir a maratona do rio e fez um conteúdo incrível. contou também do dia em que uns clientes fizeram festa com banda de pagode ali depois da corrida e um senhor de uns 75 anos, cliente de todo sábado, tomou o café dele tranquilo no meio da zoada. depois disso decidiram não ter mais show na casa. hoje o mana é café da manhã.
o futuro
ele sonha com o porto da barra como um polo turístico esportivo, uma copacabana baiana só no esporte, com natação, canoa e corrida. vê delivery pra quem não pode ir todo dia, ainda não decidiu se vai franquear, e quer construir um mana de salvador. o nome, aliás, não é do maná do céu, é do mana da energia que flui por tudo (quem jogou rpg sabe, hehe). e ele gosta que ninguém ali sabe quem tem dinheiro e quem não tem: tem croissant de padeiro francês e tem batata-doce com ovo.
a dica dele pra quem quer empreender: o balcão, a pia, lavar prato, atender cliente. muita empresa fecha porque o cara quer ser empreendedor e não quer a dor. empreender dói, pede fim de semana, pede tempo com a família. todo mundo pode, não é pra todo mundo. "comece pequeno, mas comece hoje." e empreenda com uma crença inabalável, senão é só mais um negócio no mundo.
o que você faz no seu balcão que ninguém vê?
fui. 💚


