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conversas

voz e posicionamento feminino, com mariana freire e monalisa franco

a criadora da arte de falar e uma manicure que virou empresária falaram no papo worklover® sobre celebrar o erro, cobrar o que vale, decidir no meio da dor e por que falar em público começa pelo que a gente sente.

por kerkbrander · fabiokerk®
· 1h19 de podcast · 13 min de leitura
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esse papo worklover juntou duas mulheres que eu admiro muito. a mariana freire, que criou a arte de falar e foi minha professora de expressão, e a monalisa franco, manicure e empresária que empreende na área da beleza. o tema era voz e posicionamento feminino, e a conversa foi longe.

pipa, intensidade e curiosidade

comecei pedindo que elas se apresentassem sem filtro. a monalisa disse que é intensidade: 30 anos, manicure, empresária, dona de uma empresa que nasceu da dor dela, das clientes e das profissionais com quem ela se conectava. "todo dia a monalisa se descobre."

a mari lembrou da menina que aprendeu a fazer pipa com os meninos da rua. tinha medo de comprar o papel de seda, mas aprendeu a ajeitar a talisca, cortar no tamanho certo, amarrar a rabiola e cortar a pipa do outro pra sair correndo atrás. não era competição, era a curiosidade de entender a cadeia inteira de alguma coisa, do começo ao fim da brincadeira. aos 48 anos, com a arte de falar fazendo 15, ela se define como artista, educadora e uma menina brincante que ajuda as pessoas a construírem autenticidade e autoconhecimento na fala pública.

errei!

contei o que mais me marcou na primeira aula com a mari: ela pôs a turma em roda e mandou comemorar cada erro. eu sou da geração do "não fez mais do que sua obrigação", e por isso a régua sempre ficou alta demais, até o básico bem feito parecia pouco. depois daquela aula, me peguei várias vezes dirigindo, errando alguma coisa, rindo e dizendo "errei!". ela me corrigiu na hora: não é "yes", é "errei!", com os braços pra cima, mostrando a axila, sorrisão, olhando pra frente.

ela contou que o errei celebrativo, o loveback e outras práticas que criou vieram da própria história. foi educada com rigor e autoritarismo, era tímida, retraída, não podia falar. na monografia de pós, estudou a história do erro na humanidade e entendeu que a criatividade depende de permitir o erro no processo. "eu não acho bonito errar na mesa de cirurgia", ressalvou. o erro de que ela fala é o da fala pública, o cacoete, o vício de linguagem, o gaguejar quando a emoção entra. e lembrou que a vida não acontece quando a gente chega lá. chega lá onde? citou o livro "o palhaço e o psicanalista", que diferencia cuidado de controle, e o medo de errar mora no controle. eu emendei com o mindset da carol dweck: quem tem mentalidade fixa tem potencial enorme e não se joga por medo de errar.

a monalisa disse que pra ela não existe erro, existe acerto e experiência. ela é ação pura. a psicóloga dela brinca que quando pensa em pular de paraquedas, a monalisa já tá lá embaixo, levantando e viva. o que ela faz depois é refletir: onde me joguei demais sem planejar? onde podia ter corrigido a rota?

a origem do worklover

aproveitei pra contar uma coisa que eu nunca tinha contado. eu trabalhei em muitos lugares e depois de um tempo ficava infeliz, como se trabalhar virasse autoflagelação. em 2006, quando entrei na faculdade de design (já trabalhando como designer), conheci a teoria das lovemarks, de criar marcas que as pessoas amam, e me identifiquei. na mesma época atendi um cliente workaholic que nunca tinha tempo pra nada. pensei: não quero isso pra minha vida, meu método vai ser worklover. e lembro do clique, vendo alguém mexendo no computador e pensando "isso é pra minha vida".

a professora que pagou workshops com o próprio salário

o clique da mari veio quando ela era professora substituta de dicção numa universidade, no primeiro governo lula, numa turma de mais de 30 pessoas muito diversas: policial militar, empregada doméstica, gente que acabou de sair do ensino médio e um senhor de 79 anos voltando a estudar. ela fez a pergunta que já fazia num curso livre da ufba: você gosta da sua voz? o que dizem dela? como você a enxerga? e pediu a resposta escrita à mão, em letra cursiva. quase todos detestavam a própria voz. só uma terapeuta disse que gostava.

ela decidiu mudar aquilo. chamou fonoaudióloga, professora de dança, professora de canto, e pagou esses profissionais com o próprio salário pra darem workshops dentro da disciplina. no fim, vendo os seminários criativos da turma, pensou: isso é um negócio. saiu dali e montou o primeiro curso da arte de falar, com teatro, canto e fonoaudiologia, cada parte com um profissional. nunca mais parou.

da trança à empresa

a monalisa chegou na beleza por uma dor de autoestima. sofria com os próprios traços, porque as pessoas ridicularizavam e não deixavam ela se enxergar bonita. começou cuidando de si, primeiro como trancista, depois como manicure, e viu a felicidade das clientes se sentindo bem arrumadas. diziam que ela devia estudar pra ser médica, e ela respondia que ia cuidar de autoestima. como mulher preta, contou que o corpo dela sempre chamou atenção antes do rosto, e ela tinha vergonha, porque queria que olhassem pra trança, pro traço, e dissessem que ela tava linda.

com o tempo percebeu que não era só cuidar da cliente, era cuidar das profissionais também. ela perguntava qual era o problema delas, e a resposta era "não tenho agenda". faltava posicionamento. aí foi estudar empreendedorismo, gestão, e nasceu a empresa dela, com um nome que junta riqueza e beleza. "eu gosto de tudo que vem rico", ela disse. riqueza interna, de quem se sente merecedora do lugar.

eu lembrei que napoleon hill, entrevistando pessoas ricas, ouviu no fim da vida que a grande riqueza eram as relações, e que hoje tempo e qualidade de vida também são riqueza. a mari completou que a gente precisa de tudo, inclusive de dinheiro, que permite saúde mental, encontro com amigos, cultura, um vinho em casa. as mulheres entraram no mundo do trabalho pela revolução industrial e pela guerra, mas sem a ideia de que também tinham direito a uma vida próspera e inteira. até pra pensar em espiritualidade a gente precisa de dinheiro no bolso. e a monalisa falou de quebrar o padrão de onde cresceu, em que a mulher precisava de um parceiro pra se manter. "boa parte dos homens tem medo das mulheres que voam."

os homens que diminuem as mulheres

aqui eu entrei com o que vejo no universo masculino. a sociedade cobra do homem estar sempre rígido, ser quem banca, quem domina, quem protege. muitos não conseguem sustentar esse lugar no trabalho e chegam em casa gastando energia pra diminuir a mulher. conheço mulheres incríveis sendo minadas aos poucos por quem não incentiva o trabalho delas. mesmo que o homem possa bancar tudo, ela precisa de um propósito próprio, porque movimento é vida.

a mari foi mais fundo: estamos falando de patriarcado, de uma ideologia que atravessa hábitos, linguagem e comportamento. dinheiro, pra ela, é resultado de necessidades humanas, como previsibilidade, conforto, saúde, prazer e afeto. e contou que são pouquíssimos os homens que conseguem escutar a voz de uma mulher e ser guiados por ela, e que eles precisam disso pra sair do sofrimento em que estão.

eu acredito que, quando um movimento precisa romper algo, ele vai primeiro pro extremo e depois se equilibra. e acho que um homem desconstruído na roda de amigos movimenta muito. eu cansei de conversa de homem que só fala de futebol, carro, quanto ganha, traição como se fosse normal, e aguento uns vinte minutos disso. fui procurar homens que fazem autoconhecimento: fiz três anos de formação em constelação, trouxe um psicólogo alemão que trabalha com o ancestral masculino pra uma vivência com 20 homens, e dali nasceu o grupo terapêutico masculino que existe há dez anos. com minha filha, eu elogio os cachos dela desde pequena, pra que se um dia ela fizer escova seja escolha e não falta de reforço. não crio ela pra cozinhar pra homem nenhum, e cobro do meu filho as tarefas de casa até mais do que dela, porque já percebo nela o peso desse papel.

o que você tá sentindo agora?

a mari contou de um mentorado, um homem experiente do marketing político, a quem ela perguntou: o que você tá sentindo agora? silêncio. ele tinha saído de uma conversa social com ressaca moral, porque performou em vez de ser espontâneo, e não tinha percebido o que o corpo dele sentiu na hora. pra ela, educar a fala pública passa por resgatar esse lugar do sentir, principalmente nos homens. eles têm séculos de palanque e de microfone, e as mulheres precisam de apoio pra desenvolver isso, por isso o público dela é quase todo feminino. mas ela adora receber homens e começar pela mesma pergunta.

eu aprendi com a terapia que ser homem não é a agressividade de fechar a cara e brigar. é muito mais difícil se centrar e dizer: isso me incomodou por causa disso. eu faço esse raciocínio o tempo todo, inclusive ali no podcast: tô ansioso por quê? porque amo o que faço e minha reputação importa. minha namorada diz que cansa, e cansa mesmo, mas vale.

posicionamento e preço

perguntei à monalisa o que diferencia uma manicure líder de uma comum. ela disse que quase toda profissional, quando perguntada sobre posicionamento, responde "boa técnica". e não é só isso. ela leva autoestima, conversa, escuta. "eu enxerguei minha profissão como uma profissão que cura, e eu também me curo."

no preço, ela decidiu que queria ficar rica com a profissão e foi atrás do público que paga por isso, estudando técnica e autoconhecimento. tem manicure que faz um alongamento, que leva quase duas horas, por 40, 50 reais, e depois de pagar o ônibus não sobra quase nada. e falam que salvador não paga, mas o povo paga caro em show. eu usei a comparação que uso com cliente de marca: um celular de sete a dez mil reais perde valor a cada uso e fica obsoleto em poucos anos, enquanto a sua marca ganha valor a cada uso. no meu pré-briefing eu cheguei a perguntar o modelo do celular da pessoa, e quando ela vinha discutir preço, eu lembrava. e falei da gente que aluga macbook e carro pra foto. já dispensei cliente que queria esse caminho.

a monalisa contou de uma cliente que chegou dizendo que não tinha dormido direito de ressaca, depois de tomar um vinho caríssimo, e reclamou do preço da unha. ela respondeu que, enquanto o vinho deixou ela de ressaca, a unha ia deixar ela quinze dias com a autoestima tranquila.

a força de uma decisão

contei uma história que me marcou. numa formação de palhaçaria que a mari me indicou, eu saía todo dia pra tomar uma cerveja no santo antônio. um dia, comentando com um amigo que nunca consegui aprender inglês, o garçom encostou e soltou uma frase em inglês tirando onda com a gente. perguntei como aprendeu. "quando eu decidi." depois disse que escreveu e publicou um livro de poesia, e mostrou a foto. e que decidiu construir a própria casa, virou mestre de obra, pedreiro, e mostrou a casa rebocada. eu fiquei pensando na palavra decisão. anos antes, quando pesquisei o que tinham em comum os mais de 500 participantes do meu desafio de posicionamento de 21 dias, os resultados eram todos diferentes: gente que multiplicou o faturamento, que melhorou o casamento, que saiu do emprego. a única coisa igual foi tomar uma decisão.

a monalisa decide o tempo todo, e diz que o maior erro dela é não planejar. contou que, quando sentiu que salvador não tava mais valorizando o trabalho dela, decidiu ir pra são paulo. decidiu em julho e no dia 15 de agosto foi, com coragem e 950 reais. tava morando com a irmã, estudando vinte dias e trabalhando dez, as contas chegando, e não queria voltar pra comunidade nem pra casa da mãe. "se for pra dar cinco passos pra trás, eu dou em outro estado." o voo mudou, ela desceu em guarulhos, gastou 115 reais de uber e 55 num café no aeroporto. o motorista tinha franco no sobrenome. ela foi direto numa república que uma amiga indicou na liberdade, sentiu a energia e ficou. fazia nove graus e ela passou a noite com o secador ligado pra se esquentar, hehe. em 2025 fez um evento com 150 pessoas, chamou atenção do sebrae, e em julho voltou a salvador pra ver a família. "eu decidi no momento da dor, no momento em que tinha que ser decidido."

a decisão da mari começou no colégio público, quando escolheu artes cênicas no vestibular e um amigo disse que ela ia passar fome. ela respondeu de bate-pronto: "eu não nasci pra fazer o que os outros querem". não passou, porque não tinha técnica pro monólogo, mas foi ali que leu tennessee williams, "eles não usam black-tie" e as tragédias gregas. com 17 anos entrou no curso livre e foi escolhida por uma professora de voz. e agora, depois de uma vida inteira autônoma, decidiu aceitar um trabalho numa instituição e pensar com calma, com estratégia, nos próximos 15 ou 20 anos da arte de falar. ela acha que a estratégia é o maior desafio das mulheres negras empreendedoras, e não quer produzir na velocidade da luz que a rede exige. quer envelhecer como mentora, num lugar ético, humanizado e criativo, colaborando em vez de competir.

a tecnologia é emocional

perguntei por que gente inteligente e com conteúdo tem tanta dificuldade de se expressar. ela adorou, porque todo mundo pergunta de técnica. em quinze anos ela descobriu que a tecnologia é emocional. aos 39 anos, já com a arte de falar, ela caiu num buraco emocional. se reconstruiu com roda de sagrado feminino, terapia toda semana, yoga e meditação budista, e por último com a comunicação não violenta, estudada a fundo com o dominic barter. "a mariana de 39 que caiu não é a mesma de 48." pra ela, boa parte do adoecimento psíquico de hoje vem da falta de estrutura emocional e de separar a fala do corpo e das emoções. e a última peça foi a espiritualidade, a conexão com a ancestralidade e com o candomblé, uma ética interna. falar em público não é só palestra, é falar com a filha antes de sair de casa. ela vai errar, mas tem tecnologia emocional pra refazer os laços.

eu disse que isso é coerência pura, que é o meu valor de vida. não só o que eu sou, falo e faço estarem conectados, mas o que tá dentro e o que sai. quando isso se liga, flui.

o que é meu vem a mim

pra quem tá começando na beleza, a monalisa deu duas dicas: autoconhecimento e relacionamento. ouvir antes de falar, se posicionar e não deixar o outro definir o que é seu. "o que é meu vem a mim com facilidade, alegria e glória." pra ela, networking é ouvir, e a mesa de manicure é uma sala de oratória: tem dia que ela conversa mais com homem do que com mulher, e tocar na mão do cliente é criar relação. quando a gente serve, é servido.

a mensagem da mari foi que cada ser vivo vale a pena e que não existe fala perfeita, existe a sua fala. quando trava, ela imagina uma fila de ancestrais com a mão no ombro dela, dizendo vai que eu te apoio. e lembrou que a terra flutua no espaço com um monte de planetas e nenhum se bate. tem espaço pra todo mundo. a monalisa resumiu como um triângulo: ela cuida da autoestima, a mari da fala e eu da marca.

a mari confessou que, com 30 anos de teatro, era quase o primeiro podcast dela. eu acho podcast um lugar precioso, porque ninguém sustenta trinta, quarenta minutos sobre um assunto se não sabe do que tá falando. e ela fechou com uma lição de um grupo de meditação: a relação de verdade é de um pra um. mesmo numa sala com quinze alunos, o olhar é coletivo e individual ao mesmo tempo, senão a gente pasteuriza tudo e passa por cima das pessoas.

o que você tá sentindo agora?

fui. 💚

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